Só aquilo que somos realmente tem o poder de nos curar (Carl Jung)

domingo, 23 de outubro de 2016

Catarina e a terapia VII

Catarina continua a falar sobre as avaliações, e dentre uma palavra e outra o seu pensamento pousa sobre as memórias de seus pais. Maria, enquanto terapeuta, buscava no que estava sendo dito a causa de alguma coisa, porque quando se fala de pai e mãe deve de estar falando sobre a causa de alguma coisa. Se o que é dito é um rio, pai e mãe seriam duas pepitas de ouro reluzentes. Tudo o mais, a paisagem, o fluxo de água, lenta ou não, os peixes, as quedas d'água, as árvores que debruçam seus galhos verdes na lâmina de água, nada mais são do que detalhes.
Para o garimpeiro terra é fonte de ouro. Machuca-a com suas ferramentas duras e frias. Não lhe resta outra alternativa. Se a sua própria vida é escassa do que o faz humano, mortal mas equilibrado, tanto mais motiva-se a surrar a terra, quebrar as pedras e realizar tantas outras coisas que sabemos serem tão ou mais cruéis em busca do brilho amarelado.
Catarina ainda era terra de ninguém, enigmática, fechada e de extraordinário valor, principalmente para aqueles que se deixaram consumir pela febre do ouro e ficaram cegos para todo o conjunto. Ninguém sabe mais sobre o verde intenso das matas do que os índios, e ninguém se acha tão sabedor quanto os exploradores.
Maria era esforçada, mas parecia ter perdido a aula de história.




Continua...

sábado, 22 de outubro de 2016

O caso Christopher II

O zunido de milhares de abelhas em um dia quente de verão, quando atiçadas por uma mão qualquer. Assim parecia o estado natural da mente de Christopher. Tão pequeno garoto e com tanto sofrimento já vivido nos últimos anos. Era uma daquelas criaturas que está vivo simplesmente para assegurar que há ainda alguém com coração piedoso na Terra. Christopher não era bem uma criança, mas um número em uma ficha de pesquisa universitária - posto que era mais número do que gente, não se esperava dele que sentisse alguma coisa, mas que falasse como as coisas davam-se assim e assado com ele e não de outra maneira. Havia mais cientistas interessados nele do que amigo com quem brincar.
Não sabia o que fazer, e, pequeno que era, só lhe bastava acreditar no que seus pais diziam. E seus pais e toda a gente dizia que ele era anormal, então ele não podia ser outra coisa. Anormalmente brincava, sorria às vezes, chorava maior parte do tempo.
A melhor brincadeira era dançar e brincar com Manoela, a amiga que sempre falava de uma bola dourada que ele deveria buscar. Manoela tinha a mesma idade que ele, e a pele branquinha da menina combinava com o vestido rosa e rodado que ela sempre usava. Para Manoela, Christopher era Christopher e não um punhado de números.



Continua...