Só aquilo que somos realmente tem o poder de nos curar (Carl Jung)

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Monstro marinho

Em meio a pedras sentei
e o horizonte lá fora
arrebentou meu peito 
quando fez-se sentimento.

Aceitei-o com dificuldade
mas o destino do navegante
é deixar-se cair no limite do mundo.

O mundo que é só seu
construído com o sangue 
de suas próprias esperanças.

Agora navego
e cair é melhor do que ficar.
Arriscar-se é melhor que sentar-se
a espera do porvir.

O destino é implacável pra navega,
mas é insuportável para quem espera.





Longinus

Na estreiteza da vereda vejo,
cruzes às margens
Como antigamente se costumava fazer,
Para os mortos nas estradas.

Cruzes são a tranca da porta
entre os vivos e os mortos.
O vivo, num ritual, fecha a possibilidade
Da vingança daquele que da vida foi tirado.

Ando como quem padece,
vejo como quem deseja,
Encontro como quem ora.

A mulher tira do barro
aquilo que falta pra ser arte.
Vejo santos esculpidos
e Longinus entre eles.

A mulher faz lembrar
que ter fé não é ter luz,
mas ficar vezes muitas em escuridão.
E que o conto não acaba
quando acaba a página.