Só aquilo que somos realmente tem o poder de nos curar (Carl Jung)

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Monstro marinho

Em meio a pedras sentei
e o horizonte lá fora
arrebentou meu peito 
quando fez-se sentimento.

Aceitei-o com dificuldade
mas o destino do navegante
é deixar-se cair no limite do mundo.

O mundo que é só seu
construído com o sangue 
de suas próprias esperanças.

Agora navego
e cair é melhor do que ficar.
Arriscar-se é melhor que sentar-se
a espera do porvir.

O destino é implacável pra navega,
mas é insuportável para quem espera.





Longinus

Na estreiteza da vereda vejo,
cruzes às margens
Como antigamente se costumava fazer,
Para os mortos nas estradas.

Cruzes são a tranca da porta
entre os vivos e os mortos.
O vivo, num ritual, fecha a possibilidade
Da vingança daquele que da vida foi tirado.

Ando como quem padece,
vejo como quem deseja,
Encontro como quem ora.

A mulher tira do barro
aquilo que falta pra ser arte.
Vejo santos esculpidos
e Longinus entre eles.

A mulher faz lembrar
que ter fé não é ter luz,
mas ficar vezes muitas em escuridão.
E que o conto não acaba
quando acaba a página.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Cataraina e a terapia VIII

Catarina estava cabisbaixa. Os últimos meses tinham sido duros para ela. A terapia mexia muito com seus sentimentos. Talvez mais do que ela estivesse pronta. Maria se esforçava. Apesar disso, Catarina não se sentia compreendida. Aquilo havia se transformado em uma oficina... uma oficina-consultório. Antes humana, virou paciente, de paciente a um aglomerado de engrenagens. Agora ela havia decidido por um ponto final: não era peça, nem engrenagem. Era humana. Só isso. Não sabia de que maneira falar com Maria, que havia sido esforçada ao máximo. Como dizer a alguém que o máximo não é o suficiente? Aí também residia uma lição.

- Maria, na sessão de hoje eu gostaria de falar algo com você.
- Pode dizer, Catarina. Sinta-se confortável pra compartilhar.
- Eu gostaria de encerrar os nossos encontros. Não é nada que você tenha deixado de fazer, mas é que não estou conseguindo lidar com tanta pressão, com tantos pensamentos. Às vezes eu acho que sou uma engrenagem... Não... Na verdade eu acho que você me trata como uma engrenagem.
- Eu gostaria que você falasse um pouco mais. Eu fiquei muito surpresa, mas gostaria que você fosse mais clara.
- Eu sempre chego aqui e, embora me sinta mal e precise de ajuda, você apenas fica me olhando, aplicando técnicas de relaxamento, de respiração... estou me sentindo mal com isso.
- Continue...
- Vê, é disso que estou falando. Isso me irrita: continue, como você está?, fez a lição de casa?. Estou cansada. Cansada de pensar, de tentar fazer com que você reaja. Já tentei gritar, chorar, falar calmamente... mas não importa o que eu faça, você não reaje e eu não consigo me conectar com você!



Continua...

O dragão e o feitiço VI

O dragão, antes feroz e amigo íntimo da morte, foi tocado pelas palavras e ações do rapaz. De súbito, o olhar maligno desapareceu. Tornou-se uma criatura menor, mais pacífica. Talvez tenha sido tocado, doutrinado ou apenas viera a ficar comovido. Se essa fosse um conto de magia, então teríamos um feitiço quebrado, mas sendo essa história real naquilo que pode ser, dizemos então que o dragão transformou-se.
O monstro chegou perto do rapaz e disse:
- Nasci com o propósito de ser temível, e fui. Vivi o tempo necessário para ver você chegar, mas não viverei tanto pra vê-lo partir. Hoje transformo a mim mesmo, porque você foi capaz de se transformar.
- Não tenho crédito ou mérito nessa transformação. Comi o pão amassado e pedi a bênção ao deus-diabo. Dobrei os joelhos forçadamente e tive que ergue-me como um súbito reflexo para me manter vivo. Veja, meus braços e pernas são moradas de terríveis cicatrizes!
- Você fica acanhado ao mostrá-las, mas veja as minhas. Outrora marcas, minhas escamas agora são meu escudo, minha proteção e casulo. Casulo que não precisarei mais de hoje em diante. A vida é aquilo que é, e quando você morre e nasce muita vezes, não há mais começo ou fim: o que sobra é apenas ser.





Continua...

domingo, 23 de outubro de 2016

Catarina e a terapia VII

Catarina continua a falar sobre as avaliações, e dentre uma palavra e outra o seu pensamento pousa sobre as memórias de seus pais. Maria, enquanto terapeuta, buscava no que estava sendo dito a causa de alguma coisa, porque quando se fala de pai e mãe deve de estar falando sobre a causa de alguma coisa. Se o que é dito é um rio, pai e mãe seriam duas pepitas de ouro reluzentes. Tudo o mais, a paisagem, o fluxo de água, lenta ou não, os peixes, as quedas d'água, as árvores que debruçam seus galhos verdes na lâmina de água, nada mais são do que detalhes.
Para o garimpeiro terra é fonte de ouro. Machuca-a com suas ferramentas duras e frias. Não lhe resta outra alternativa. Se a sua própria vida é escassa do que o faz humano, mortal mas equilibrado, tanto mais motiva-se a surrar a terra, quebrar as pedras e realizar tantas outras coisas que sabemos serem tão ou mais cruéis em busca do brilho amarelado.
Catarina ainda era terra de ninguém, enigmática, fechada e de extraordinário valor, principalmente para aqueles que se deixaram consumir pela febre do ouro e ficaram cegos para todo o conjunto. Ninguém sabe mais sobre o verde intenso das matas do que os índios, e ninguém se acha tão sabedor quanto os exploradores.
Maria era esforçada, mas parecia ter perdido a aula de história.




Continua...

sábado, 22 de outubro de 2016

O caso Christopher II

O zunido de milhares de abelhas em um dia quente de verão, quando atiçadas por uma mão qualquer. Assim parecia o estado natural da mente de Christopher. Tão pequeno garoto e com tanto sofrimento já vivido nos últimos anos. Era uma daquelas criaturas que está vivo simplesmente para assegurar que há ainda alguém com coração piedoso na Terra. Christopher não era bem uma criança, mas um número em uma ficha de pesquisa universitária - posto que era mais número do que gente, não se esperava dele que sentisse alguma coisa, mas que falasse como as coisas davam-se assim e assado com ele e não de outra maneira. Havia mais cientistas interessados nele do que amigo com quem brincar.
Não sabia o que fazer, e, pequeno que era, só lhe bastava acreditar no que seus pais diziam. E seus pais e toda a gente dizia que ele era anormal, então ele não podia ser outra coisa. Anormalmente brincava, sorria às vezes, chorava maior parte do tempo.
A melhor brincadeira era dançar e brincar com Manoela, a amiga que sempre falava de uma bola dourada que ele deveria buscar. Manoela tinha a mesma idade que ele, e a pele branquinha da menina combinava com o vestido rosa e rodado que ela sempre usava. Para Manoela, Christopher era Christopher e não um punhado de números.



Continua...

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Eleições animais

De todo o reino um animal precisava
Mutuca, abelha, coelho, andorinha e pavão
Todos os animais - de bicho pequeno até grandão.

Em tudo aquilo reinava confusão:
papel na estrada, xingamento e palavrão.
Num sei quem era melhor - e outro fulano era bonzão.

Gritavam para o mundo ouvir, menos o coração
que ficava guardado na gaveta, até as eleição.
Depois disso era bonança e pros pobres ingratidão.

O porco ganhou... lambança teve de montão.
Tempo passou, porco tomou banho pra nova competição
O danado ganhou. Esqueceram a podridão!

As formigas fizeram reunião,
porque o danado do pavão nem deu água
mas queria bandeira erguida, folheto e distração
nos semáforos e ruas até de noitão.

Se água a trabalhador não dá o pavão
imagine pão, leite e ovos pra multidão
que nele votasse, depois da eleição.