Só aquilo que somos realmente tem o poder de nos curar (Carl Jung)

quarta-feira, 29 de junho de 2016

12 para uma

Do amor distante
Fez-se susurro em noite fria.

Do gelo,
Remédio para dor.

Dos desconcertos,
Desculpa para o olhar sincero.

De todas as dores,
Conversas sem fim

E a cada passo,
Esse peregrino alado pousa e canta,
Fazendo da erva daninha
Matéria-prima de fino devir.


O dragão e o feitiço III

A voz sumiu, mas sua vontade e curiosidade retornaram. Como não tinha nada a fazer, começou a falar consigo mesmo. Para sua surpresa, alguém respondeu:
- Quem é você que fala sozinho como se estivesse em uma multidão?
O rapaz respondeu:
- Eu sou eu, ué!
- E ser você é ser alguma coisa?
- Não sei. As coisas são assim.

A voz emudeceu. Depois de um tempo, retornou:
- Não está mais falando sozinho?
O garoto respondeu: - Não, agora tenho você, que também não sei quem é.
- Eu sou algo. Não dá pra descrever. Mas você pode sentir.

O rapaz fez o que foi sugerido. Contudo, a forma era muito diferente de tudo o que ele já vira. Havia escama, havia algo quente e também de pegajoso. Assustou-se!

- Você é um dragão?
- Sou o que fizeram e o que dizem de mim.




Continua...

quarta-feira, 22 de junho de 2016

O dragão e o feitiço II

O jovem partiu pelo caminho mais longo. Poucos passos além do início e a passagem entre pedras e troncos velhos começou a estreitar-se. Ele não esperava por aquilo:
- "Além de ser longo, é o mais chato. Não dá pra me mexer direito aqui. Pedra de um lado, tronco de outro. Espero que não tenha nenhum bicho aqui".
Mas tinha. O que havia além de todos aqueles obstáculos eram bichos. Pequenos, grandes, coloridos, pretos e brancos. O medo apossou-se do jovem. Tremeu, sentiu frio na barriga. Tentou voltar e não pôde. Ficou cansado e adormeceu. Fez o que não podia.
Acordou assustado no meio da noite. Não conseguia ver além de um palmo de distância. Tateou o caminho, procurou por uma luz e não encontrou. Quando tudo parecia dar errado: chorou.
Uma voz baixinha pediu-lhe que andasse numa direção. Como não restava mais nada a fazer, ele obedeceu. A voz disse: "Dê um grito!". Ele gritou.
- Agora dê três pulinhos.
Ele pulou.
- Só falta dançar!
Ele dançou.
- Coma terra.
Ele não comeu. Irritou-se e discutiu:
- Não vou fazer mais nada. Estou parecendo um lelé da cuca fazendo isso.
A voz não respondeu mais.




Continua...

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O dragão e o feitiço I

Um conto vem sido transmitido de pai para filho. Ninguém sabe como surgiu, nem onde. O que se sabe dele é isso:

Em uma cidadela algumas pessoas eram escolhidas para escalar uma montanha íngreme e derrotar um dragão ferocíssimo que lá habitava. Não se sabia ao certo como o líder da comunidade decidia quem ia participar ou não. O que todos sabiam é que sempre havia os eleitos. O número deles também variava. Épocas existiam que metade do vilarejo ia, em outras, uma ou duas pessoas tiravam a sorte grande.
Por mais que dissessem que era bom, ninguém acreditava. Seria estranho se fosse diferente, afinal até aquela data alma alguma retornara daquela empreitada.
Um rapaz foi eleito. Mesmo tomado pela tristeza, ele pegou seus poucos pertences, algum material para a escalada e foi. Deixou para trás tudo o que poderia impedi-lo. Não sabia o porquê de estar indo, mas foi.
No caminho enfrentou tempestades, sol intenso, a desesperança e a solidão. Chegou em uma bifurcação. Um dos caminhos deveria ter sido trilhado por muitas pessoas. A grama estava nitidamente pisada e velha. Uma placa dizia: "Curto. Um dia de viagem.". A outra placa indicava: "Longo. Dias de viagem não foram contados. Obs.: Não durma no caminho".
Ele decidiu-se: "Vou por aqui. É apenas um dia e não tem restrições." Mas, ao completar o primeiro passo ele ouviu algo de estranho vindo do outro caminho. Um som bem diferente dos que ele já tinha ouvido. A curiosidade tocou forte em seu coração. Ele decidiu parar um pouco e pensar. Não conseguia decidir-se. Resolveu pegar uma moeda do velho bolso e tirar a sorte. "Se cair cara, eu vou pelo caminho mais curto. Coroa, vou pelo mais longo". A moeda saltou ao ar, refletiu o brilho do sol e ali estava: Coroa.

Continua...

domingo, 12 de junho de 2016

Catarina e a terapia V

Maria falara com Heitor e naquela manhã havia marcado com ele para ir na velha casa de campo do professor Ernesto. Os últimos dias dele foram aproveitados vendo os seu antigos livros e pertences sendo arrumados no último cômodo que havia planejado para a casa: um escritório-biblioteca.
Entrando ali, Maria foi inundada por emoções. O velho professor não deixara de conferir seu toque único àquele espaço. À direita e esquerda da porta de entrada via-se estantes que quase tocavam o teto. Mais à frente ficava uma grande janela, que servia quase como moldura para um riacho que cortava os fundos da propriedade.
Maria andou um pouco mais e viu no centro da sala, pendurado, um pequeno lustre. Tomou um susto, porque era a única coisa que destoava do contexto simples e convidativo da casa. Foi assim que perdeu-se em pensamentos enquanto olhava as pequenas peças translúcidas que faziam a iluminação se tornar mais charmosa.
Uma das memórias que surgiu em sua mente, pedindo por espaço e atenção foi a de uma fala do professor. Ele começara a aula escrevendo no quadro uma frase em latim que ela não mais lembrava. O que lhe restava na memória havia sido parte de um texto que o  professor lera que dizia mais ou menos que o amor era algo raro nos dias de hoje e que deveríamos ficar mais abertos quando ele surgisse. Como todo pássaro selvagem, se nos assustamos quando ele pousa perto de nós, logo bate as asas para longe. O amor pode ser busca, mas é também aceitação.
Era engraçado lembrar disso. Maria estava se sentindo frustrada em ter que atender Catarina nesse mesmo dia à tarde. Talvez a reflexão sobre o amor a ajudasse, ou talvez só desse ainda mais coragem para Maria finalizar seu trabalho e recomendar que Catarina procurasse outro profissional.




Continua...



quinta-feira, 9 de junho de 2016

Psicografia

Um dia, tu dormirás profundamente.
Teu corpo estará cansado demais para reagir
e os teus pensamentos calarão diante de todas
as dúvidas que te maltratam a existência.

Teus sentimentos cessarão e cairá
em sono e exaustão.
Não haverá esperança, nem cólera
apenas entrega ao que não podes ver.

Em sonho, viajarás por tantos lugares
que duvidarás entre a realidade e a fantasia.
Será que restará fantasia?
E o que é realidade? Não saberás.

Ao acordar, sentirá uma leveza inconfundível
dentro do teu peito. Teu coração estará envolto
numa manta macia e quente. Como se o possuíssem
entre duas mãos gentis.

Teus medos não estarão mais lá,
muito menos todo o desespero dos dias.
Suas dúvidas se dissiparão, como se um raio divino
as tivesse feito em pó.

Sentirá que teu existir se forma em comunhão
com tudo o que há.
Por ser o que há de essencial em ti, sentir-se-á só,
mas isso não importará, porque terá o mais precioso

tesouro: o encontro contigo.
Tocarás as nuvens no alto.
Mas assim que abrires os olhos
a realidade cairá sobre ti

como a lâmina do carrasco.
Tentarás fugir e proteger teu coração
mas ele não resistirá à tensão do mundo
repleto de desejos e ambições.


Poderás verter uma ou duas lágrimas
e elas fecundarão a terra onde pisas,
como se fossem a dádiva dos céus
em tua jornada de buscas e reveses.

domingo, 5 de junho de 2016

O Ferreiro

Vieste com teu jeito simples e roupas quase em trapos,
passando da esquerda para a direita de meus sonhos.
E as imagens, em meio a névoa de tudo o que sinto,
tomaram a voz de um mim mesmo esquecido há muito.

Reverenciei o meu profundo silêncio e nele tu me falaste:
"Homem, faço do que é dos outros desnecessário, minha arte:
A sucata na margem, o choro não visto, a voz não ouvida,
o órfão, a viúva, o amante despercebido, a dor e a cura repudiada.

Meticuloso na escolha, serro, dobro, soldo com mestria;
na lida secular, aprendi a ver o que resta como alta valia.
Esta é minha breve fala que em tua condição te ofereço".
Dessas tuas palavras em minha consciência rima faço

para colocar em terra o fruto do teu mais alto galho,
verei tua imagem, e do teu símbolo farei tema de trabalho.
Ferreiro e sábio és, ao lado do fogo e da água fazes
aquilo que aprendo agora: olhar do homem as necessidades.

sábado, 4 de junho de 2016

Catarina e a terapia IV

Aquela era uma manhã quente de primavera e o professor Ernesto recebia alguns estudantes na varanda de sua casa. Ficava distante da cidade, em uma pequena propriedade que o professor havia adquirido depois de juntar, com muito esforço, o dinheiro necessário para a compra. A casa contava inicialmente com apenas um quarto e uma cozinha. Com o passar do tempo Ernesto foi aumentado os cômodos até que aquele lugar se tornara uma simples, mas aconchegante casa de campo. 
Os alunos se aglomeravam naquele pequeno espaço, enquanto o professor Ernesto servia um pouco de chá para aqueles que gostavam. O grupo era sempre o mesmo. Eles haviam optado por aquele lugar alternativo porque havia sido a condição para que o professor continuasse dando aulas. Suas condições físicas já não eram as mesmas, e deslocar-se todos os dias até a universidade exigia dele uma força que não mais existia. Todos gostavam do tom descontraído, a fala mansa e baixinha do professor Ernesto, exceto aquela menina que preferia ficar sob a sombra da Quaresmeira. Longe do grupo.
Os amigos sempre cochichavam acerca de Maria, a menina tímida e de humor oscilante que parecia não gostar de Ernesto.





Continua...

O caso Christopher

O choro preso na garganta. Joelhos dobrados colados ao peito. Braços envolvendo-os. Lágrimas que caem e cintilam na negritude do quarto quente e abafado. O relógio apontava 3 da manhã e não havia nada de tranquilo na madrugada. Christopher não sabia o que era ter um sono tranquilo há pouco menos de um ano. Perto dele havia rabiscos desconhecidos na parede, feitos por um pedaço de carvão que ele ao menos vira. Caracteres irreconhecíveis. Vozes sussurram-lhe ao ouvido coisas que ele não pode distinguir. As idéias se misturam e ele grita forte. Ninguém o escuta, então ele grita cada vez mais, cada vez mais forte, cada vez mais agudo. As luzes acendem lá fora. Ele percebe pela linha abaixo da porta uma claridade que se confunde à esperança.

- Christopher!!! Quantas vezes tenho que dizer que você não deve riscar as paredes? Quantas vezes eu preciso dizer que você está teimoso demais, birrento demais? Olhe só toda essa bagunça!

- Mas, mamãe, eu não fiz isso! Juro. 

- Quem fez?

- Não sei!!! Eles estão na minha cabeça.





Continua...