Só aquilo que somos realmente tem o poder de nos curar (Carl Jung)

segunda-feira, 30 de maio de 2016

O Quatro-Patas

Andou em passos dissimulados,
farejou como que tivesse perdido
a alma em algum canto do meu espaço.

Soube ignorar quando quis carinho;
e soube debruçar-se sobre si
quando quis o olhar do meu sentido.

Deitou-se sobre o que era meu
com a suavidade do inverno que chega.

Deixou-se tocar, quando quis brincar
com as minhas mãos feitas em brinquedo.

Era cedo e o tempo pedia repouso
para todas as coisas duras e racionais.
Parei em meio a calma daquele de pelos macios
e olhos penetrantes e sagazes.

Farejei o mito no descortinar dos fatos;
senti o símbolo do preto e branco
que de garras afiadas
desafiava a dureza dos meus dias.

Nenhum miado naquele dia,
só a visita do mensageiro de Bastet
aninhado em minhas vestes
e no telhado das minhas ideias.

domingo, 29 de maio de 2016

Os sonhos de Agamenon II

- Eu me lembro pouco. Só passa por minha memória flashes e uma sensação de caos. Tudo muito misturado: cenas que já aconteceram com situações que nunca vivi. Havia também muitas vozes. Meu sono foi ruim essa noite. Acordei e dormi várias vezes. Me sinto estressado e impaciente.

Era isso que estava escrito no pequeno papel que Agamenon dera a André logo no início da segunda sessão. Esse novo sonho, embora breve, trazia algo de confuso, como fora o primeiro. 
Agamenon era um sujeito tranquilo com uma barba branca e bem feita, que denunciava tanto sua faixa etária quanto o gosto pelas coisas bem feitas. Foi logo após seu quinquagésimo oitavo aniversário que ele aparecera no consultório de André, interessado em saber por qual motivo seus sonhos estavam cada vez mais constantes, sombrios e inexplicáveis.
André ouvira falar que os pacientes "sempre têm uma desculpa perfeita para procurar terapia" e o interesse do seu atual paciente pelo universo dos sonhos se enquadrava bem nisso. O que não achava enquadre perfeito eram as tentativas para descobrir o que havia para além do sonho, do dito, do sentimento que se transformara em imagem, cor e movimento.




Continua...

sábado, 28 de maio de 2016

Catarina e a terapia III

Se passaram três semanas desde o primeiro encontro de Maria com Catarina. Era uma paciente de difícil manejo e demandava de Maria um esforço que ela não estava acostumada a fazer. Desde a faculdade, Maria sentia que seu futuro estava traçado e a paixão pela clínica seria forte o suficiente para mantê-la trabalhando e dedicando-se. Mas o destino muitas vezes prega peças nos mais entusiasmados. Agora a paixão e o interesse não eram suficientes. Catarina não mostrava avanços, apesar dos esforços incessantes de Maria. Foram livros, horas de supervisão e diálogos com amigos mais próximos que pudessem oferecer algum tipo de ajuda. Mesmo assim, nada parecia mudar. Pior do que isso, Maria suspeitava que Catarina estaria revivendo algo de seu passado. Nesse jogo, Maria estava caindo como uma presa fácil e sem boas perspectivas.

Mexendo em seus velhos cadernos de psicologia, Maria avistara um nome e um número de telefone. Era de seu antigo professor, Ernesto. Era um desses professores que passavam horas sentado e a comentar casos. Ela odiava esse tipo de professor, porque aparentemente não demostrava o menor interesse em seguir o projeto das disciplinas, e todos sabem como era importante saber todos os conteúdos. Pensava ela. No entanto, isso não era suficiente.

- Alô! Eu gostaria de saber se esse ainda é o telefone do professor Ernesto.

A pessoa do outro lado demorou um pouco a responder. Mas com voz trêmula...

- Olá. Esse era o antigo número do professor Ernesto. Aqui quem fala é o filho dele, Heitor. Veja... acho que faz tempo que você não liga pro meu pai, mas a verdade é que ele faleceu recentemente...

Maria não sabia o que fazer. Parecia-lhe que o destino, ou quem quer que o controlasse, não simpatizava com ela. Poderia ser um sinal de que ela deveria ir por outro caminho. 
Como que lendo os pensamentos dela, Heitor continuou...

- ...e deixou para trás caixas com muitos livros e anotações. A biblioteca dele também está intacta. 




Continua...


domingo, 22 de maio de 2016

Pendurado

Do dia se fez escuridão,
e na escuridão todo som
se tornava a maldição das almas
que nunca cativei.

Armaram-se para envenenar
a vinha de sonhos que fora semeada.
Uma a uma, as folhas murchas caíram
forrando o chão úmido onde sentei.

Na cegueira, toquei a rocha pontiaguda
que recebeu com carinho meu sangue quente.
Toquei-o, eu mesmo, o aglomerado vermelho
das coisas que de pequeninas, nunca percebi.

Voaram sobre minha cabeça
aqueles alados negros
que dormem enquanto quedam em latência,
e que se assustam com a ameaça de luz.

Tive medo.

Ao longe, o som da gotícula que fazia da queda
beijo, som e onda, confortava a batida acelerada
do meu coração posto entre fogo e brasa.

sábado, 21 de maio de 2016

Catarina e a terapia II

- É mesmo surpreendente começar a tarde de trabalho com um elogio desses, Catarina. - Disse Maria.
Catarina, sem entender muito bem o que estava acontecendo, pois esperava uma resposta menos polida, ficou sem jeito:

- Como assim? Eu te elogiei?

- Claro, ao me chamar de faxineira! Veja, sem as faxineiras esse ambiente não seria tão limpo e nem tão agradável. Elas chegam antes de todos, pegam um transporte público horrível e, na maior parte das vezes, não as vemos reclamar. Pra mim isso foi um elogio, porque elas são sinônimo simplicidade, esforço e trabalho duro.

Catarina continuou sem saber o que dizer. Ela estava acostumada a discussões acaloradas, mas aquela resposta da terapeuta Maria a desconcertou. Queria encontrar um lugar para se esconder e não achou. O que lhe sobrava era entrar por aquela porta aberta por Maria.
Dentro da pequena sala do consultório havia iluminação branda, uma música suave ao fundo, duas poltronas e um carpete com figuras geométricas estampadas, criando um território entre a terapeuta e Catarina.






Continua...

sexta-feira, 20 de maio de 2016

O mágico

Ruge o corpo em desalinho
beijando a retidão do horizonte
fazendo do mistério imprevisto cadinho
das cores e sons contidos no instante.

Da cartola sai o coelho, o gato, o passarinho
num toque suave da mão sortuda e contente
do silencioso mágico que de sua seda e linho
faz brotar as maravilhas da desventura dissonante.

O regurgitar das palavras sai de mansinho
na loucura e insanidade do verso inconstante
que só o que teve a asa quebrada no torvelinho
das emoções em profundidade agoniante

sabe ver o resultado daquele espinho
que nasceu junto àquela rosa fulgurante
e que soube se fazer em fluidez e carinho
ao ver a luz e o brilho da calma constante.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Os sonhos de Agamenon I

- Eu estava em um lugar estranho. Corria desesperadamente sem saber a direção. Na minha frente havia duas árvores. Não sei bem se eram árvores ou se eram pilastras. Sei somente que passei por elas. Ao longe vi alguns parentes e amigos e eles acenavam para mim como se houvesse algo errado. Senti algo em minha boca. Fiquei desesperado porque parecia que meus dentes estavam soltos em minha boca. Cuspi três ou quatro deles.

Agamenon suava muito enquanto relatava seu sonho a André, o terapeuta. Tudo indicava que o sonho trazido espontaneamente poderia revelar algo de importante. Mas, para André, era um trabalho difícil e isso por uma série de fatores: o primeiro deles é que havia apenas duas sessões que ele e Agamenon estavam juntos. Portanto, conheciam-se pouco. André ainda não estabelecera um bom rapport com seu cliente. A segunda dificuldade era a de que o sonho parecia, a uma primeira vista, extremamente confuso, aleatório. A terceira, que fazia André coçar a cabeça de preocupação, tratava-se de um sonho comum a muitos: a imagem dos dentes caindo. Uma imagem, aliás, que ele mesmo já experimentara em seus sonhos e da qual não  chegara a uma conclusão sobre o significado. 

Por onde André começaria? Qual teoria ele deveria utilizar? Não lhe sobrava mais tempo para responder a essas questões. A sessão estava terminando e na cabeça de André pululavam questões sem respostas. Será que ele seria o terapeuta adequado a Agamenon? Como ele desvendaria aquele enigma em uma semana, até a próxima sessão com o aflito Agamenon?


Continua...




segunda-feira, 16 de maio de 2016

A tecelã

Estou na rachadura oca da árvore
que se estende da terra aos céus
beijando a luz com suas folhas
de corpo alongado e verde.

Faço meu atelier entre as sombras,
a solidão e as cascas quase soltas
do interior invisível aos amantes
que preferem o sabor dos frutos.

Sou a vida do Criador
onde outrora era morte e escuridão.
Meus fios partem daqui para acolá
fazendo do vazio moldura e contraste.

Eles são claros como o primeiro raio
e fortes como o último trovão.
Nas arestas estão os nós
que prendem a rede da esperança.

Descanso por dentre meus fios
e desperto ao mínimo toque
daquilo que faz vibrar meu corpo
e a despertar meu desejo de harmonia.

sábado, 14 de maio de 2016

Catarina e a terapia I

O dia estava muito chuvoso naquela quarta-feira. Era por volta das 15 horas, mas as nuvens densas faziam acreditar que já passava das 18hrs. Catarina odiava chuva. Odiava ter que andar com um guarda-chuva enorme que não cabia na bolsa e ainda virava ao contrário quando o vento mais forte o encontrava.
Aquele era um dia odiento para Catarina: chuva, trânsito pesado, buzinas. Parece que tudo o que ela não gostava resolveu reunir-se em um mesmo dia. Além disso, era nesse mesmo dia que começariam as suas sessões de psicoterapia. Catarina também odiava ter que precisar de algo assim, porque ela mesma não era doida.
A clínica era um lugar modesto. Na sala de espera havia cinco ou seis lugares e alguns quadros de temas diversos em duas daquelas paredes. Havia algo de diferente, mas Catarina não sabia ao certo o quê. Ficou por ali, encharcada da chuva.
- Não sei por que ainda uso isso! - referindo-se ao guarda-chuva - Sempre me molho toda. Só a cabeça que fica seca.
Alguns minutos se passaram e entrou na sala de espera uma jovem negra, trajando roupas muito simples e surradas. Catarina imaginou que fosse a faxineira e logo imaginou como alguém poderia ir trabalhar daquele jeito.
- Oi, Catarina! Fico feliz que tenha vindo hoje. Será que você poderia me acompanhar até a sala?
Catarina quase caiu, mas, por sorte, estava sentada. A faxineira havia falado com ela de forma educada e como já a conhecesse.
De fato, conhecia. Maria havia atendido um telefonema de Catarina semanas antes, perguntando sobre os custos de uma psicoterapia.
- Você é a psicóloga? - Disse Catarina, olhando-a de cima a baixo. - Vestindo-se assim parece uma faxineira, e das piores!


Continua...



sexta-feira, 13 de maio de 2016

Crepúsculo

Tudo vai morrendo aos poucos
lá fora:

/O colorido acompanha
a despedida do sol.
/O canto dos pássaros
despede-se.

- "O espaço negro banha todos os cantos
e serve de fundo para todas as palavras
que se façam com o giz de nossos sonhos
que hoje ainda não foram mortos".

terça-feira, 10 de maio de 2016

José e a ansiedade

José era um cara legal, mas sofria com sua ansiedade.
Tudo começa a partir de seu nascimento: o menino já queria sair da barriga da mãe com sete meses. Não dá, né José? - Deveria pensar o obstetra. E realmente não dava. Quem nunca viu alguém nascer de sete meses? Acontece, mas não é normal. Dizem os médicos.
Na adolescência José ficou interessado em uma garota. Marcou o encontro. Ficou tão nervoso que na hora da valsa pisou um sem número de vezes no pé da moça.
Nem devo contar o que aconteceu.
A vida do garoto começou a despencar a partir daí. José entrou em crise. Os pais também. A consulta com o psicólogo era caríssima! E na medida que o profissional se especializava mais, a consulta ficava ainda mais cara. José, que era apenas ansioso, começou a ficar preocupado: ansioso, sem dinheiro, sem namorada e sem psicólogo. Ficou ainda pior quando ele viu em um programa de tv que ele deveria se tratar e se acalmar. A partir de então José ficava não apenas ansioso, mas com raiva porque não conseguia controlar sua própria ansiedade. Um caos.
Por um golpe do destino José encontrou uma garota legal. Ela gostou do jeito ansioso dele. Até achava engraçado.
Será que eu estou sonhando? - Perguntava-se ele.
Não, José não estava sonhando.
Com o tempo José passou a não ligar quando diziam que ele era ansioso - E quase todo mundo achava isso. Tudo bem, ele tremia mais do que a maioria das pessoas nas provas. Mas ele aprendeu a ser ele mesmo. Alguns anos depois, José sabia mais sobre si mesmo e sobre sua ansiedade. Notou o que o fazia se sentir assim. Descobriu que ficava pior quando tomava coca-cola. Ninguém acreditou, nem mesmo ele. As coisas eram assim. O que poderia fazer? Deixou a coca-cola e começou a tomar suco verde. Em menos de três meses José virou especialista em sucos verdes.

domingo, 8 de maio de 2016

O que é psicologia


A dama do imponderável

Encantei-me com teu jeito de ver o mundo,
falando-me que aqui, não era apenas o isto,
e o aquilo que interpretava minha visão como tudo
não era senão a imagem, o planeta-cisto

imerso no vasto e imponderável, com seus defeitos
e o caos que sempre lhe fora estranhamente familiar.
Vi-me sobrevoando o universo, guiando-se pelo sussurrar
de tua religião, filosofia e ciência postos em amores e conceitos.

Permaneci contigo porque tu eras - além do mundo as quimeras -
a promessa da eterna e brilhante luz, intensa e salvadora.
Dei-te a minha alma em credulidade, em infinita espera
pelos mundos benditos, melhores do que essa simples esfera.

Ouvi a tua voz feita em palestras, e senti a tua lâmina
passar pelos meus galhos tenros e de sensibilidade fina.
Senti o frio do aço percorrer meus sonhos, repartido-os.
Havia comigo os desejos sinceros, perto de ti, mantive-os.

Agora, devo despedir-me de tua casa de frágeis telhas
com as quais brinquei de atirar as pedras da dúvida
que eu sempre mantive nos bolsos das roupas velhas.
Contigo mantenho das telhas rachadas a nobre dívida.

E, porque não mais quero o teu ouro, me despeço.
Quero agora o pequeno que jaz em mim.
Não desejo, tampouco, o universo,
e sim o grão singelo e irregular do meu jardim.

Descobri, numa topada enquanto andava
que o mistério reside no que antes pensei ser quimera
a abarrotar a minha vida a cada esquina
e em cada rosto plácido da rua em que nasci

Trauma de infância

A mãe a olhou de lado desde seu nascimento. Na verdade, aquele recém nascido não fora planejado, mas fruto de uma paixão repentina de verão. Uma dessas paixões avassaladoras que nos faz esquecer o que há de mais lógico e ponderado.
Alguns dizem que a Psicologia nasceu de parto cesariana, outros dizem que foi natural, porém com algumas complicações. Eu acho mesmo que ela nasceu de parto natural e foi rejeitada ainda no primeiro dia. Então, deixo a vocês a escolha de em qual versão acreditar.
O fato é que a Psicologia teve uma infância difícil. A mãe, chamada Filosofia, parece ter-lhe dado alguma atenção no início. Talvez. Não se sabe. A pobre Psicologia sofreu bullying em seus anos iniciais, principalmente da Ciência, que parecia ser mais robusta e sempre roubava a cena por aqueles tempos. A turma chamava a Psicologia de mal-nutrida. Coitada. Sempre caía nas aulas de Educação Física. Corria mais um pouco e logo despencava como fruta madura. As pessoas até tentavam se manter sérias, mas o riso era inevitável.
Depois de um tempo ela aprendeu a tolerar as ofensas e seguir seu próprio caminho. E eram tantas as veredas. Na adolescência interessou-se por física e matemática, interesses que conciliava aos bate-papos sobre sociologia e antropologia. Um pouco mais velha entrou na vibe new age. Seu mapa dizia que ela era geminiana, com ascendente em sagitário, lua também em gêmeos e vênus em áries.
Agora ela está na época em que precisa decidir o que quer ser. Indicaram-na sessões de psicanálise.


sábado, 7 de maio de 2016

A LENDA DO PRIMEIRO OLHO

Dentre alguns povos antigos costuma-se contar a lenda da primeira pessoa que fora capaz de enxergar. Como toda lenda, ninguém sabe ao certo como ela surgiu, quem propagou e nem quem foi seu protagonista. Talvez isso seja bom. Creio que isso é realmente muito bom. Mas passemos à lenda.
*
A euforia era o sentimento reinante naquele dia de inverno. As mulheres se preparavam para o ato tão solene e os homens, por seu turno, adornavam seus corpos antes de adentrarem na mata com seus instrumentos para caçarem. Tratava-se de um novo nascimento. Como a tribo era pequena, cada novo ser que vinha da nação das estrelas era recebido com muita alegria, festa, dança e as orações habituais para a ocasião.
Tão logo se fez sentir a primeira contração, e que naquele tempo chamava-se apropriadamente de “canto de boas-vindas”, um grupo de dez a quinze mulheres se reuniram dentro de uma tenda feita de pele de animais e estacas, tendo ao centro a mulher que cantava para seu filho e uma avó da tribo. Só a mulher mais experiente poderia receber a criança, as outras deveriam formar um círculo em volta dela e garantir que suas orações fossem a primeira coisa a ser ouvida pela criança com o espírito das estrelas.
Assim que se ouviu o primeiro choro, a gentil avó da tribo tocou parte a parte do corpo daquela nova criança. Era preciso fazer isso, porque não se podia ter um filho de estrela dentro de um corpo defeituoso. Era o que se acreditava.
A avó tocou cada um dos pés, certificando-se de que em cada um fosse encontrado dez dedos, subiu suas carinhosas mãos pelas pernas, tronco, ombros, braços, costas e por fim, o rosto. Mas, para a surpresa daquela anciã, o garoto – já sabia que se tratava de um menino – possuía algo estranho entre a raiz do nariz e o início do couro cabeludo. Não havia outra pessoa com aquela marca. O que era aquilo? Um defeito? Será que aquele seria um bom guerreiro? Mais perguntas do que respostas a anciã sabia, então ela calou e antes do amanhecer do outro dia resolveu falar com o xamã.
Ninguém sabia por qual motivo o povo das estrelas havia mandado um pequeno guerreiro com “aquilo”. Apesar disso, o povo invisível da terra que conversava com o xamã era claro ao dizer que “aquilo” era o que eles precisavam. O Conselho teve que ser reunido. Os mais velhos estavam aturdidos. As regras da tribo não poderiam ser violadas, e o menino não deveria viver. “Aquilo” ameaçava os outros. Se ele não era perfeito, não poderia caçar, não poderia defender as mulheres, não poderia fazer o que um guerreiro deveria fazer. Por outro lado, o povo invisível da terra dizia que eles precisavam “daquilo”.
Depois de muito discutirem, chegaram a uma conclusão: o menino ficaria sempre sob os olhares dos outros e não participaria das atividades principais da tribo, assim ele não meteria ninguém em confusão nem em perigo.
Ainda criança, o menino dizia que as pessoas não eram tão saudáveis, sabia quais frutas poderiam fazer mal e quais poderiam fazer bem. Era capaz de prever quando duas pessoas se chocariam e quando alguém se chocaria com outra coisa qualquer. Em pouco tempo, o menino sabia quem chegava à tenda de seus pais antes mesmo que a pessoa dissesse o nome. Ele também sabia quando alguém estava zangado ou feliz, sem ao menos a pessoa falar disso.
As pessoas se assustaram com o menino e ele se assustava com o susto das pessoas. E por tanto se assustar, o menino aprendeu que melhor era passar parte de seu dia na mata, onde árvores, animais, terra e ar não julgavam e não tinham medo. Ele tinha muitas perguntas, mas poucas respostas. Com o tempo, ele foi deixando de lado as perguntas e pensou em como mostrar ao povo da tribo que ele poderia ajudar mais do que atrapalhar.
As pessoas podiam apenas tocar, cheirar, saborear, mas ele podia algo mais. Algo que ele não sabia o que era e também ninguém mais sabia. Ele conseguia distinguir, mais do que qualquer outro, um galho seco de uma cobra, um tomate de um caqui – antes de por na boca – uma semente de uma pedra. E porque ele era capaz de distinguir, ele criou nomes novos para as coisas novas. Descobriu a tinta e pintou seu corpo, descobriu as ervas certas para a saúde e se tornou o mais saudável e forte, mas o mais temido; descobriu os venenos e se tornou o mais perigoso.
O povo continuava temeroso. O garoto continuava sua batalha interior. Ninguém se entendia. O garoto cansou das pessoas dizerem que ele possuía “aquilo” e resolveu chamar isso de “olho”. Um nome novo para algo igualmente novo. Não se contentou com isso e dizia que sua mágica se chamava “visão” e com ela poderia “ver” coisas que as outras pessoas não viam. O restante da tribo ria-se do rapaz que achava saber do que estava falando.
Os curandeiros tentaram de tudo, mas o jovem não parecia pertencer àquele lugar. A essa altura ele já estava em idade de caçar, de participar dos ritos e de compartilhar o que havia de bom na tribo, mas essas e outras coisas eram-lhe proibidas. Nada parecia estar certo, até o dia em que a esposa do chefe da tribo ficara doente e, apesar dos esforços dos curandeiros, nada pareceu melhorar.
Como último recurso, chamaram o jovem do “olho”. Ele ficou surpreso e eufórico. Talvez todos os seus anos de angústia e humilhação tivessem-no preparado para aquela situação. Correu em ver a esposa do chefe o mais rápido que pôde. Disse, sem demora, aos que estavam ali que “viu” através de seu “olho” que ela tomara o remédio errado para seu mal-estar. A mulher ficou espantada e todos calados. Há muitos anos eles faziam a mesma coisa e ninguém desconfiava que pudesse fazer mal. O rapaz foi até à floresta e voltou com o remédio certo.
O chefe ficou agradecido, e a esposa dele também. Depois do episódio, as pessoas procuravam o jovem que podia prever quando as frutas cairiam, quando a chuva chegaria e quando um animal ameaçava a tribo. Ele ainda contou histórias sobre como o pai-sol acordava de um lado e dormia do outro. Se ele podia ver, podia também esclarecer e foi o que ele fez.

Com o tempo, mais crianças vindas do povo-das-estrelas chegaram com o que já se sabia ser um “olho”.  O rapaz sabia como elas se sentiam, e, por isso as ensinava. Em menos de três gerações a tribo cresceu e se tornou mais saudável. As crianças ficavam menos doentes e os pais menos preocupados, porque eles passaram a entender que o olho poderia ser algo bom para todos.  As caçadas passaram a ser mais proveitosas, os rituais mais alegres. Aqueles que viam eram respeitados não apenas pelo que eram capazes de fazer, mas porque decidiam não fazer certas coisas.

A morte e a tulipa

Na chuva e na serenidade dessa noite
vieram visitar-me enquanto dormia
e a imagem, ao lado do fogo flamejante,
celebrou a morte de tudo que já foi um dia.

Vi a temida caveira escondendo-se por baixo
daquilo que me parecia a normalidade das coisas:
o pensado, o vivido, o concreto, o imaginado, o cacho
dos sonhos brotando junto à videira de gavinhas preciosas.

E eis que o abobadado branco e áspero
deixou de ser o que viveu e tornou-se - de ponta-cabeça-
o cálice alvo do qual poderia servir-se quaisquer em desespero:
bebi o morno e rubro, de cheiro forte e textura espessa

e quase vomitei o mundo que passei a ver
com todos os ossos dos antepassados escondidos
em covas rasas que fizemos com toda pressa do nosso viver.
Atingiu-me a angústia de ser tal como esses esquecidos.

O osso se tornou carne, e a carne sangue e movimento
e o movimento se fez para todos os lados: céu e labareda
e logo depois ele surgiu novamente como cálice do sentimento
vivo e imortal, fugaz e eterno, celestial e de existência sagrada.

E a morte, sorrindo ao lado, disse-me matreira: "Entenda!"
e eu vi, ao lado do tronco que se consumia em chama
as cinzas se tornarem de leito em terra fecunda
de onde nascia a tulipa em lindo heptagrama.