Só aquilo que somos realmente tem o poder de nos curar (Carl Jung)

domingo, 4 de dezembro de 2016

Cataraina e a terapia VIII

Catarina estava cabisbaixa. Os últimos meses tinham sido duros para ela. A terapia mexia muito com seus sentimentos. Talvez mais do que ela estivesse pronta. Maria se esforçava. Apesar disso, Catarina não se sentia compreendida. Aquilo havia se transformado em uma oficina... uma oficina-consultório. Antes humana, virou paciente, de paciente a um aglomerado de engrenagens. Agora ela havia decidido por um ponto final: não era peça, nem engrenagem. Era humana. Só isso. Não sabia de que maneira falar com Maria, que havia sido esforçada ao máximo. Como dizer a alguém que o máximo não é o suficiente? Aí também residia uma lição.

- Maria, na sessão de hoje eu gostaria de falar algo com você.
- Pode dizer, Catarina. Sinta-se confortável pra compartilhar.
- Eu gostaria de encerrar os nossos encontros. Não é nada que você tenha deixado de fazer, mas é que não estou conseguindo lidar com tanta pressão, com tantos pensamentos. Às vezes eu acho que sou uma engrenagem... Não... Na verdade eu acho que você me trata como uma engrenagem.
- Eu gostaria que você falasse um pouco mais. Eu fiquei muito surpresa, mas gostaria que você fosse mais clara.
- Eu sempre chego aqui e, embora me sinta mal e precise de ajuda, você apenas fica me olhando, aplicando técnicas de relaxamento, de respiração... estou me sentindo mal com isso.
- Continue...
- Vê, é disso que estou falando. Isso me irrita: continue, como você está?, fez a lição de casa?. Estou cansada. Cansada de pensar, de tentar fazer com que você reaja. Já tentei gritar, chorar, falar calmamente... mas não importa o que eu faça, você não reaje e eu não consigo me conectar com você!



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O dragão e o feitiço VI

O dragão, antes feroz e amigo íntimo da morte, foi tocado pelas palavras e ações do rapaz. De súbito, o olhar maligno desapareceu. Tornou-se uma criatura menor, mais pacífica. Talvez tenha sido tocado, doutrinado ou apenas viera a ficar comovido. Se essa fosse um conto de magia, então teríamos um feitiço quebrado, mas sendo essa história real naquilo que pode ser, dizemos então que o dragão transformou-se.
O monstro chegou perto do rapaz e disse:
- Nasci com o propósito de ser temível, e fui. Vivi o tempo necessário para ver você chegar, mas não viverei tanto pra vê-lo partir. Hoje transformo a mim mesmo, porque você foi capaz de se transformar.
- Não tenho crédito ou mérito nessa transformação. Comi o pão amassado e pedi a bênção ao deus-diabo. Dobrei os joelhos forçadamente e tive que ergue-me como um súbito reflexo para me manter vivo. Veja, meus braços e pernas são moradas de terríveis cicatrizes!
- Você fica acanhado ao mostrá-las, mas veja as minhas. Outrora marcas, minhas escamas agora são meu escudo, minha proteção e casulo. Casulo que não precisarei mais de hoje em diante. A vida é aquilo que é, e quando você morre e nasce muita vezes, não há mais começo ou fim: o que sobra é apenas ser.





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domingo, 23 de outubro de 2016

Catarina e a terapia VII

Catarina continua a falar sobre as avaliações, e dentre uma palavra e outra o seu pensamento pousa sobre as memórias de seus pais. Maria, enquanto terapeuta, buscava no que estava sendo dito a causa de alguma coisa, porque quando se fala de pai e mãe deve de estar falando sobre a causa de alguma coisa. Se o que é dito é um rio, pai e mãe seriam duas pepitas de ouro reluzentes. Tudo o mais, a paisagem, o fluxo de água, lenta ou não, os peixes, as quedas d'água, as árvores que debruçam seus galhos verdes na lâmina de água, nada mais são do que detalhes.
Para o garimpeiro terra é fonte de ouro. Machuca-a com suas ferramentas duras e frias. Não lhe resta outra alternativa. Se a sua própria vida é escassa do que o faz humano, mortal mas equilibrado, tanto mais motiva-se a surrar a terra, quebrar as pedras e realizar tantas outras coisas que sabemos serem tão ou mais cruéis em busca do brilho amarelado.
Catarina ainda era terra de ninguém, enigmática, fechada e de extraordinário valor, principalmente para aqueles que se deixaram consumir pela febre do ouro e ficaram cegos para todo o conjunto. Ninguém sabe mais sobre o verde intenso das matas do que os índios, e ninguém se acha tão sabedor quanto os exploradores.
Maria era esforçada, mas parecia ter perdido a aula de história.




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sábado, 22 de outubro de 2016

O caso Christopher II

O zunido de milhares de abelhas em um dia quente de verão, quando atiçadas por uma mão qualquer. Assim parecia o estado natural da mente de Christopher. Tão pequeno garoto e com tanto sofrimento já vivido nos últimos anos. Era uma daquelas criaturas que está vivo simplesmente para assegurar que há ainda alguém com coração piedoso na Terra. Christopher não era bem uma criança, mas um número em uma ficha de pesquisa universitária - posto que era mais número do que gente, não se esperava dele que sentisse alguma coisa, mas que falasse como as coisas davam-se assim e assado com ele e não de outra maneira. Havia mais cientistas interessados nele do que amigo com quem brincar.
Não sabia o que fazer, e, pequeno que era, só lhe bastava acreditar no que seus pais diziam. E seus pais e toda a gente dizia que ele era anormal, então ele não podia ser outra coisa. Anormalmente brincava, sorria às vezes, chorava maior parte do tempo.
A melhor brincadeira era dançar e brincar com Manoela, a amiga que sempre falava de uma bola dourada que ele deveria buscar. Manoela tinha a mesma idade que ele, e a pele branquinha da menina combinava com o vestido rosa e rodado que ela sempre usava. Para Manoela, Christopher era Christopher e não um punhado de números.



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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Eleições animais

De todo o reino um animal precisava
Mutuca, abelha, coelho, andorinha e pavão
Todos os animais - de bicho pequeno até grandão.

Em tudo aquilo reinava confusão:
papel na estrada, xingamento e palavrão.
Num sei quem era melhor - e outro fulano era bonzão.

Gritavam para o mundo ouvir, menos o coração
que ficava guardado na gaveta, até as eleição.
Depois disso era bonança e pros pobres ingratidão.

O porco ganhou... lambança teve de montão.
Tempo passou, porco tomou banho pra nova competição
O danado ganhou. Esqueceram a podridão!

As formigas fizeram reunião,
porque o danado do pavão nem deu água
mas queria bandeira erguida, folheto e distração
nos semáforos e ruas até de noitão.

Se água a trabalhador não dá o pavão
imagine pão, leite e ovos pra multidão
que nele votasse, depois da eleição.




quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Catarina e a terapia VI

Ao ver Catarina entrando pela porta do consultório Maria já sabia que algo de estranho havia acontecido. Catarina estava cabisbaixa e pouco falante.

- O que houve, Catarina? 
- Odeio avaliações. Tudo no mundo é uma avaliação.

Maria não havia entendido o que Catarina queria dizer com avaliações. Esse era um tema novo naquele espaço. Isso intrigou a terapeuta, que a um certo tempo esperava uma brecha para discutir pontos importantes no esquema de pensamentos de Catarina. Até aquele momento Maria ouvia mais e empenhava-se em construir um espaço acolhedor para Catarina.

- Eu não sei... Estou confusa, Maria. Muito confusa. De repente parece que o mundo todo gira em volta de um grande complô, onde todos são avaliados. Nós somos avaliados na escola, em casa, para dirigir, para trabalhar... são avaliações orais, escritas... não aguento mais isso.

Catarina estava visivelmente triste. Mesmo que ela pudesse ser considerada uma cliente de difícil manejo, nunca houvera situação em que ela demonstrasse aspectos mais frágeis de si mesma. Maria ouvia atentamente o que sua paciente dizia e algo, uma voz sutil em Maria, dizia que aquela era a chance que ela estava esperando. 


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Farelo de herói

Meu mundo de mentira ficou na esquina:
sobrou na curva fechada do pensar.

O gato ferido visitou-me à noite
e a roseira saiu da garganta daquela mulher
que me mostrou a placa de metal
onde havia seu nome e mais três.

Cuspi borboletas enquanto falava.
Xinguei o professor e, no lugar,
vi asas azuis e prateadas
para longe voar.

Deixei meu mundo de verdade na cama
e levantei cedo para brincar.

Não te encontrei no pique
nem no esconde.
Acertou-me uma bolada
no ato de queimar.

Virei menino sem pestanejar.
Deixei o herói na cama
sentindo seu corpo se esfarelar.

Vivi farelo.
Comi ilusões.
A espada estava cega
e o coração,
"- coração?"

sábado, 13 de agosto de 2016

O dragão e o feitiço V

As palavras reverberaram na alma do próprio rapaz. Falou como que num estalo sobre o ser único que todos são. Fora quase uma intuição. Foi tomado pela palavra e a palavra se tornou vida fora dele. O dragão, ali escutando, insinuara a cabeça como se fosse num impulso de sua natureza, espantar o rapaz para longe ou matá-lo de um golpe apenas.
O frágil projeto de herói não soube o que disse ou pelo qual motivo disse, mas já estava dito e assim foi. Pensava profundamente no que havia sido regurgitado e não viu naquilo nada de seu. Ou talvez fosse e ele nunca houvera prestado atenção em quantas vezes foi sábio sem que soubesse. O que sabia é que teria sido tolo por muitas vezes, pacífico muitas vezes e tudo o que ele não teria gostado de ser ou de fazer também por vezes sem conta. Mas ali, com a vida em risco, encarando aquele ser cuspidor de fogo, de hálito podre e pele escamosa, ele começou a descobrir o que poderia ser vida e o que seria ele que não aquele mesmo que falou sabiamente - e quantas vezes somos sábios sem parecer, ou que mesmo sendo sábios somos tolos por não falarmos. E tantos outros momentos que não somos tolos nem sábios e a diferença entre a loucura e a sanidade é a música que toca ao fundo.

O dragão e o feitiço IV

O garoto pensou muito em todas as vezes que imaginou ser o que diziam dele. No seu íntimo, não concordava que aquilo que havia tocado era o que ele pensava simplesmente. Retrucou:

- Você não pode ser o que fazem de ti. Você é o que é. Diga-me, então, quem és!
O outro, sem pensar muito, se é que havia algo de pensamento naquela criatura, disse:
- Dizem que sou um dragão: feroz, de pele impenetrável, hálito que queima até o mais resistente dos materiais.
- O  que você é? O que faz você ser você? O que faz você se sentiu único e insubstituível?
- Ora, insubstituível? O que diz você? Todos nós somos substituíveis, como peças de uma engrenagem qualquer. Como tudo que há na natureza pode ser substituído, uma árvore, uma pedra...
- Meu amigo, fizeram o que quiseram de ti, envenenando sua mente contra você mesmo. Somos únicos, ímpares, insubstituíveis. Somos algo de incomum, e, ao mesmo tempo, somos tão iguais. Mas, dentro de nós, há uma chama pulsante e única. Você não viu a natureza direito. Seus olhos foram cobertos por um véu. Veja, cada árvore é única, o padrão de galhos e folhas, os desenhos em suas cascas, o volume e a cor de seus frutos. Se essa árvore morrer, nenhuma outra poderá substituí-la. Nenhuma poderá ter as mesmas lembranças, nenhuma poderá fazer rememorar sentimentos. Cada ser é único. Único em suas lembranças, sentimentos, desejos e temores.


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quarta-feira, 29 de junho de 2016

12 para uma

Do amor distante
Fez-se susurro em noite fria.

Do gelo,
Remédio para dor.

Dos desconcertos,
Desculpa para o olhar sincero.

De todas as dores,
Conversas sem fim

E a cada passo,
Esse peregrino alado pousa e canta,
Fazendo da erva daninha
Matéria-prima de fino devir.


O dragão e o feitiço III

A voz sumiu, mas sua vontade e curiosidade retornaram. Como não tinha nada a fazer, começou a falar consigo mesmo. Para sua surpresa, alguém respondeu:
- Quem é você que fala sozinho como se estivesse em uma multidão?
O rapaz respondeu:
- Eu sou eu, ué!
- E ser você é ser alguma coisa?
- Não sei. As coisas são assim.

A voz emudeceu. Depois de um tempo, retornou:
- Não está mais falando sozinho?
O garoto respondeu: - Não, agora tenho você, que também não sei quem é.
- Eu sou algo. Não dá pra descrever. Mas você pode sentir.

O rapaz fez o que foi sugerido. Contudo, a forma era muito diferente de tudo o que ele já vira. Havia escama, havia algo quente e também de pegajoso. Assustou-se!

- Você é um dragão?
- Sou o que fizeram e o que dizem de mim.




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quarta-feira, 22 de junho de 2016

O dragão e o feitiço II

O jovem partiu pelo caminho mais longo. Poucos passos além do início e a passagem entre pedras e troncos velhos começou a estreitar-se. Ele não esperava por aquilo:
- "Além de ser longo, é o mais chato. Não dá pra me mexer direito aqui. Pedra de um lado, tronco de outro. Espero que não tenha nenhum bicho aqui".
Mas tinha. O que havia além de todos aqueles obstáculos eram bichos. Pequenos, grandes, coloridos, pretos e brancos. O medo apossou-se do jovem. Tremeu, sentiu frio na barriga. Tentou voltar e não pôde. Ficou cansado e adormeceu. Fez o que não podia.
Acordou assustado no meio da noite. Não conseguia ver além de um palmo de distância. Tateou o caminho, procurou por uma luz e não encontrou. Quando tudo parecia dar errado: chorou.
Uma voz baixinha pediu-lhe que andasse numa direção. Como não restava mais nada a fazer, ele obedeceu. A voz disse: "Dê um grito!". Ele gritou.
- Agora dê três pulinhos.
Ele pulou.
- Só falta dançar!
Ele dançou.
- Coma terra.
Ele não comeu. Irritou-se e discutiu:
- Não vou fazer mais nada. Estou parecendo um lelé da cuca fazendo isso.
A voz não respondeu mais.




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quarta-feira, 15 de junho de 2016

O dragão e o feitiço I

Um conto vem sido transmitido de pai para filho. Ninguém sabe como surgiu, nem onde. O que se sabe dele é isso:

Em uma cidadela algumas pessoas eram escolhidas para escalar uma montanha íngreme e derrotar um dragão ferocíssimo que lá habitava. Não se sabia ao certo como o líder da comunidade decidia quem ia participar ou não. O que todos sabiam é que sempre havia os eleitos. O número deles também variava. Épocas existiam que metade do vilarejo ia, em outras, uma ou duas pessoas tiravam a sorte grande.
Por mais que dissessem que era bom, ninguém acreditava. Seria estranho se fosse diferente, afinal até aquela data alma alguma retornara daquela empreitada.
Um rapaz foi eleito. Mesmo tomado pela tristeza, ele pegou seus poucos pertences, algum material para a escalada e foi. Deixou para trás tudo o que poderia impedi-lo. Não sabia o porquê de estar indo, mas foi.
No caminho enfrentou tempestades, sol intenso, a desesperança e a solidão. Chegou em uma bifurcação. Um dos caminhos deveria ter sido trilhado por muitas pessoas. A grama estava nitidamente pisada e velha. Uma placa dizia: "Curto. Um dia de viagem.". A outra placa indicava: "Longo. Dias de viagem não foram contados. Obs.: Não durma no caminho".
Ele decidiu-se: "Vou por aqui. É apenas um dia e não tem restrições." Mas, ao completar o primeiro passo ele ouviu algo de estranho vindo do outro caminho. Um som bem diferente dos que ele já tinha ouvido. A curiosidade tocou forte em seu coração. Ele decidiu parar um pouco e pensar. Não conseguia decidir-se. Resolveu pegar uma moeda do velho bolso e tirar a sorte. "Se cair cara, eu vou pelo caminho mais curto. Coroa, vou pelo mais longo". A moeda saltou ao ar, refletiu o brilho do sol e ali estava: Coroa.

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domingo, 12 de junho de 2016

Catarina e a terapia V

Maria falara com Heitor e naquela manhã havia marcado com ele para ir na velha casa de campo do professor Ernesto. Os últimos dias dele foram aproveitados vendo os seu antigos livros e pertences sendo arrumados no último cômodo que havia planejado para a casa: um escritório-biblioteca.
Entrando ali, Maria foi inundada por emoções. O velho professor não deixara de conferir seu toque único àquele espaço. À direita e esquerda da porta de entrada via-se estantes que quase tocavam o teto. Mais à frente ficava uma grande janela, que servia quase como moldura para um riacho que cortava os fundos da propriedade.
Maria andou um pouco mais e viu no centro da sala, pendurado, um pequeno lustre. Tomou um susto, porque era a única coisa que destoava do contexto simples e convidativo da casa. Foi assim que perdeu-se em pensamentos enquanto olhava as pequenas peças translúcidas que faziam a iluminação se tornar mais charmosa.
Uma das memórias que surgiu em sua mente, pedindo por espaço e atenção foi a de uma fala do professor. Ele começara a aula escrevendo no quadro uma frase em latim que ela não mais lembrava. O que lhe restava na memória havia sido parte de um texto que o  professor lera que dizia mais ou menos que o amor era algo raro nos dias de hoje e que deveríamos ficar mais abertos quando ele surgisse. Como todo pássaro selvagem, se nos assustamos quando ele pousa perto de nós, logo bate as asas para longe. O amor pode ser busca, mas é também aceitação.
Era engraçado lembrar disso. Maria estava se sentindo frustrada em ter que atender Catarina nesse mesmo dia à tarde. Talvez a reflexão sobre o amor a ajudasse, ou talvez só desse ainda mais coragem para Maria finalizar seu trabalho e recomendar que Catarina procurasse outro profissional.




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quinta-feira, 9 de junho de 2016

Psicografia

Um dia, tu dormirás profundamente.
Teu corpo estará cansado demais para reagir
e os teus pensamentos calarão diante de todas
as dúvidas que te maltratam a existência.

Teus sentimentos cessarão e cairá
em sono e exaustão.
Não haverá esperança, nem cólera
apenas entrega ao que não podes ver.

Em sonho, viajarás por tantos lugares
que duvidarás entre a realidade e a fantasia.
Será que restará fantasia?
E o que é realidade? Não saberás.

Ao acordar, sentirá uma leveza inconfundível
dentro do teu peito. Teu coração estará envolto
numa manta macia e quente. Como se o possuíssem
entre duas mãos gentis.

Teus medos não estarão mais lá,
muito menos todo o desespero dos dias.
Suas dúvidas se dissiparão, como se um raio divino
as tivesse feito em pó.

Sentirá que teu existir se forma em comunhão
com tudo o que há.
Por ser o que há de essencial em ti, sentir-se-á só,
mas isso não importará, porque terá o mais precioso

tesouro: o encontro contigo.
Tocarás as nuvens no alto.
Mas assim que abrires os olhos
a realidade cairá sobre ti

como a lâmina do carrasco.
Tentarás fugir e proteger teu coração
mas ele não resistirá à tensão do mundo
repleto de desejos e ambições.


Poderás verter uma ou duas lágrimas
e elas fecundarão a terra onde pisas,
como se fossem a dádiva dos céus
em tua jornada de buscas e reveses.

domingo, 5 de junho de 2016

O Ferreiro

Vieste com teu jeito simples e roupas quase em trapos,
passando da esquerda para a direita de meus sonhos.
E as imagens, em meio a névoa de tudo o que sinto,
tomaram a voz de um mim mesmo esquecido há muito.

Reverenciei o meu profundo silêncio e nele tu me falaste:
"Homem, faço do que é dos outros desnecessário, minha arte:
A sucata na margem, o choro não visto, a voz não ouvida,
o órfão, a viúva, o amante despercebido, a dor e a cura repudiada.

Meticuloso na escolha, serro, dobro, soldo com mestria;
na lida secular, aprendi a ver o que resta como alta valia.
Esta é minha breve fala que em tua condição te ofereço".
Dessas tuas palavras em minha consciência rima faço

para colocar em terra o fruto do teu mais alto galho,
verei tua imagem, e do teu símbolo farei tema de trabalho.
Ferreiro e sábio és, ao lado do fogo e da água fazes
aquilo que aprendo agora: olhar do homem as necessidades.

sábado, 4 de junho de 2016

Catarina e a terapia IV

Aquela era uma manhã quente de primavera e o professor Ernesto recebia alguns estudantes na varanda de sua casa. Ficava distante da cidade, em uma pequena propriedade que o professor havia adquirido depois de juntar, com muito esforço, o dinheiro necessário para a compra. A casa contava inicialmente com apenas um quarto e uma cozinha. Com o passar do tempo Ernesto foi aumentado os cômodos até que aquele lugar se tornara uma simples, mas aconchegante casa de campo. 
Os alunos se aglomeravam naquele pequeno espaço, enquanto o professor Ernesto servia um pouco de chá para aqueles que gostavam. O grupo era sempre o mesmo. Eles haviam optado por aquele lugar alternativo porque havia sido a condição para que o professor continuasse dando aulas. Suas condições físicas já não eram as mesmas, e deslocar-se todos os dias até a universidade exigia dele uma força que não mais existia. Todos gostavam do tom descontraído, a fala mansa e baixinha do professor Ernesto, exceto aquela menina que preferia ficar sob a sombra da Quaresmeira. Longe do grupo.
Os amigos sempre cochichavam acerca de Maria, a menina tímida e de humor oscilante que parecia não gostar de Ernesto.





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O caso Christopher

O choro preso na garganta. Joelhos dobrados colados ao peito. Braços envolvendo-os. Lágrimas que caem e cintilam na negritude do quarto quente e abafado. O relógio apontava 3 da manhã e não havia nada de tranquilo na madrugada. Christopher não sabia o que era ter um sono tranquilo há pouco menos de um ano. Perto dele havia rabiscos desconhecidos na parede, feitos por um pedaço de carvão que ele ao menos vira. Caracteres irreconhecíveis. Vozes sussurram-lhe ao ouvido coisas que ele não pode distinguir. As idéias se misturam e ele grita forte. Ninguém o escuta, então ele grita cada vez mais, cada vez mais forte, cada vez mais agudo. As luzes acendem lá fora. Ele percebe pela linha abaixo da porta uma claridade que se confunde à esperança.

- Christopher!!! Quantas vezes tenho que dizer que você não deve riscar as paredes? Quantas vezes eu preciso dizer que você está teimoso demais, birrento demais? Olhe só toda essa bagunça!

- Mas, mamãe, eu não fiz isso! Juro. 

- Quem fez?

- Não sei!!! Eles estão na minha cabeça.





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segunda-feira, 30 de maio de 2016

O Quatro-Patas

Andou em passos dissimulados,
farejou como que tivesse perdido
a alma em algum canto do meu espaço.

Soube ignorar quando quis carinho;
e soube debruçar-se sobre si
quando quis o olhar do meu sentido.

Deitou-se sobre o que era meu
com a suavidade do inverno que chega.

Deixou-se tocar, quando quis brincar
com as minhas mãos feitas em brinquedo.

Era cedo e o tempo pedia repouso
para todas as coisas duras e racionais.
Parei em meio a calma daquele de pelos macios
e olhos penetrantes e sagazes.

Farejei o mito no descortinar dos fatos;
senti o símbolo do preto e branco
que de garras afiadas
desafiava a dureza dos meus dias.

Nenhum miado naquele dia,
só a visita do mensageiro de Bastet
aninhado em minhas vestes
e no telhado das minhas ideias.

domingo, 29 de maio de 2016

Os sonhos de Agamenon II

- Eu me lembro pouco. Só passa por minha memória flashes e uma sensação de caos. Tudo muito misturado: cenas que já aconteceram com situações que nunca vivi. Havia também muitas vozes. Meu sono foi ruim essa noite. Acordei e dormi várias vezes. Me sinto estressado e impaciente.

Era isso que estava escrito no pequeno papel que Agamenon dera a André logo no início da segunda sessão. Esse novo sonho, embora breve, trazia algo de confuso, como fora o primeiro. 
Agamenon era um sujeito tranquilo com uma barba branca e bem feita, que denunciava tanto sua faixa etária quanto o gosto pelas coisas bem feitas. Foi logo após seu quinquagésimo oitavo aniversário que ele aparecera no consultório de André, interessado em saber por qual motivo seus sonhos estavam cada vez mais constantes, sombrios e inexplicáveis.
André ouvira falar que os pacientes "sempre têm uma desculpa perfeita para procurar terapia" e o interesse do seu atual paciente pelo universo dos sonhos se enquadrava bem nisso. O que não achava enquadre perfeito eram as tentativas para descobrir o que havia para além do sonho, do dito, do sentimento que se transformara em imagem, cor e movimento.




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sábado, 28 de maio de 2016

Catarina e a terapia III

Se passaram três semanas desde o primeiro encontro de Maria com Catarina. Era uma paciente de difícil manejo e demandava de Maria um esforço que ela não estava acostumada a fazer. Desde a faculdade, Maria sentia que seu futuro estava traçado e a paixão pela clínica seria forte o suficiente para mantê-la trabalhando e dedicando-se. Mas o destino muitas vezes prega peças nos mais entusiasmados. Agora a paixão e o interesse não eram suficientes. Catarina não mostrava avanços, apesar dos esforços incessantes de Maria. Foram livros, horas de supervisão e diálogos com amigos mais próximos que pudessem oferecer algum tipo de ajuda. Mesmo assim, nada parecia mudar. Pior do que isso, Maria suspeitava que Catarina estaria revivendo algo de seu passado. Nesse jogo, Maria estava caindo como uma presa fácil e sem boas perspectivas.

Mexendo em seus velhos cadernos de psicologia, Maria avistara um nome e um número de telefone. Era de seu antigo professor, Ernesto. Era um desses professores que passavam horas sentado e a comentar casos. Ela odiava esse tipo de professor, porque aparentemente não demostrava o menor interesse em seguir o projeto das disciplinas, e todos sabem como era importante saber todos os conteúdos. Pensava ela. No entanto, isso não era suficiente.

- Alô! Eu gostaria de saber se esse ainda é o telefone do professor Ernesto.

A pessoa do outro lado demorou um pouco a responder. Mas com voz trêmula...

- Olá. Esse era o antigo número do professor Ernesto. Aqui quem fala é o filho dele, Heitor. Veja... acho que faz tempo que você não liga pro meu pai, mas a verdade é que ele faleceu recentemente...

Maria não sabia o que fazer. Parecia-lhe que o destino, ou quem quer que o controlasse, não simpatizava com ela. Poderia ser um sinal de que ela deveria ir por outro caminho. 
Como que lendo os pensamentos dela, Heitor continuou...

- ...e deixou para trás caixas com muitos livros e anotações. A biblioteca dele também está intacta. 




Continua...


domingo, 22 de maio de 2016

Pendurado

Do dia se fez escuridão,
e na escuridão todo som
se tornava a maldição das almas
que nunca cativei.

Armaram-se para envenenar
a vinha de sonhos que fora semeada.
Uma a uma, as folhas murchas caíram
forrando o chão úmido onde sentei.

Na cegueira, toquei a rocha pontiaguda
que recebeu com carinho meu sangue quente.
Toquei-o, eu mesmo, o aglomerado vermelho
das coisas que de pequeninas, nunca percebi.

Voaram sobre minha cabeça
aqueles alados negros
que dormem enquanto quedam em latência,
e que se assustam com a ameaça de luz.

Tive medo.

Ao longe, o som da gotícula que fazia da queda
beijo, som e onda, confortava a batida acelerada
do meu coração posto entre fogo e brasa.

sábado, 21 de maio de 2016

Catarina e a terapia II

- É mesmo surpreendente começar a tarde de trabalho com um elogio desses, Catarina. - Disse Maria.
Catarina, sem entender muito bem o que estava acontecendo, pois esperava uma resposta menos polida, ficou sem jeito:

- Como assim? Eu te elogiei?

- Claro, ao me chamar de faxineira! Veja, sem as faxineiras esse ambiente não seria tão limpo e nem tão agradável. Elas chegam antes de todos, pegam um transporte público horrível e, na maior parte das vezes, não as vemos reclamar. Pra mim isso foi um elogio, porque elas são sinônimo simplicidade, esforço e trabalho duro.

Catarina continuou sem saber o que dizer. Ela estava acostumada a discussões acaloradas, mas aquela resposta da terapeuta Maria a desconcertou. Queria encontrar um lugar para se esconder e não achou. O que lhe sobrava era entrar por aquela porta aberta por Maria.
Dentro da pequena sala do consultório havia iluminação branda, uma música suave ao fundo, duas poltronas e um carpete com figuras geométricas estampadas, criando um território entre a terapeuta e Catarina.






Continua...

sexta-feira, 20 de maio de 2016

O mágico

Ruge o corpo em desalinho
beijando a retidão do horizonte
fazendo do mistério imprevisto cadinho
das cores e sons contidos no instante.

Da cartola sai o coelho, o gato, o passarinho
num toque suave da mão sortuda e contente
do silencioso mágico que de sua seda e linho
faz brotar as maravilhas da desventura dissonante.

O regurgitar das palavras sai de mansinho
na loucura e insanidade do verso inconstante
que só o que teve a asa quebrada no torvelinho
das emoções em profundidade agoniante

sabe ver o resultado daquele espinho
que nasceu junto àquela rosa fulgurante
e que soube se fazer em fluidez e carinho
ao ver a luz e o brilho da calma constante.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Os sonhos de Agamenon I

- Eu estava em um lugar estranho. Corria desesperadamente sem saber a direção. Na minha frente havia duas árvores. Não sei bem se eram árvores ou se eram pilastras. Sei somente que passei por elas. Ao longe vi alguns parentes e amigos e eles acenavam para mim como se houvesse algo errado. Senti algo em minha boca. Fiquei desesperado porque parecia que meus dentes estavam soltos em minha boca. Cuspi três ou quatro deles.

Agamenon suava muito enquanto relatava seu sonho a André, o terapeuta. Tudo indicava que o sonho trazido espontaneamente poderia revelar algo de importante. Mas, para André, era um trabalho difícil e isso por uma série de fatores: o primeiro deles é que havia apenas duas sessões que ele e Agamenon estavam juntos. Portanto, conheciam-se pouco. André ainda não estabelecera um bom rapport com seu cliente. A segunda dificuldade era a de que o sonho parecia, a uma primeira vista, extremamente confuso, aleatório. A terceira, que fazia André coçar a cabeça de preocupação, tratava-se de um sonho comum a muitos: a imagem dos dentes caindo. Uma imagem, aliás, que ele mesmo já experimentara em seus sonhos e da qual não  chegara a uma conclusão sobre o significado. 

Por onde André começaria? Qual teoria ele deveria utilizar? Não lhe sobrava mais tempo para responder a essas questões. A sessão estava terminando e na cabeça de André pululavam questões sem respostas. Será que ele seria o terapeuta adequado a Agamenon? Como ele desvendaria aquele enigma em uma semana, até a próxima sessão com o aflito Agamenon?


Continua...




segunda-feira, 16 de maio de 2016

A tecelã

Estou na rachadura oca da árvore
que se estende da terra aos céus
beijando a luz com suas folhas
de corpo alongado e verde.

Faço meu atelier entre as sombras,
a solidão e as cascas quase soltas
do interior invisível aos amantes
que preferem o sabor dos frutos.

Sou a vida do Criador
onde outrora era morte e escuridão.
Meus fios partem daqui para acolá
fazendo do vazio moldura e contraste.

Eles são claros como o primeiro raio
e fortes como o último trovão.
Nas arestas estão os nós
que prendem a rede da esperança.

Descanso por dentre meus fios
e desperto ao mínimo toque
daquilo que faz vibrar meu corpo
e a despertar meu desejo de harmonia.

sábado, 14 de maio de 2016

Catarina e a terapia I

O dia estava muito chuvoso naquela quarta-feira. Era por volta das 15 horas, mas as nuvens densas faziam acreditar que já passava das 18hrs. Catarina odiava chuva. Odiava ter que andar com um guarda-chuva enorme que não cabia na bolsa e ainda virava ao contrário quando o vento mais forte o encontrava.
Aquele era um dia odiento para Catarina: chuva, trânsito pesado, buzinas. Parece que tudo o que ela não gostava resolveu reunir-se em um mesmo dia. Além disso, era nesse mesmo dia que começariam as suas sessões de psicoterapia. Catarina também odiava ter que precisar de algo assim, porque ela mesma não era doida.
A clínica era um lugar modesto. Na sala de espera havia cinco ou seis lugares e alguns quadros de temas diversos em duas daquelas paredes. Havia algo de diferente, mas Catarina não sabia ao certo o quê. Ficou por ali, encharcada da chuva.
- Não sei por que ainda uso isso! - referindo-se ao guarda-chuva - Sempre me molho toda. Só a cabeça que fica seca.
Alguns minutos se passaram e entrou na sala de espera uma jovem negra, trajando roupas muito simples e surradas. Catarina imaginou que fosse a faxineira e logo imaginou como alguém poderia ir trabalhar daquele jeito.
- Oi, Catarina! Fico feliz que tenha vindo hoje. Será que você poderia me acompanhar até a sala?
Catarina quase caiu, mas, por sorte, estava sentada. A faxineira havia falado com ela de forma educada e como já a conhecesse.
De fato, conhecia. Maria havia atendido um telefonema de Catarina semanas antes, perguntando sobre os custos de uma psicoterapia.
- Você é a psicóloga? - Disse Catarina, olhando-a de cima a baixo. - Vestindo-se assim parece uma faxineira, e das piores!


Continua...



sexta-feira, 13 de maio de 2016

Crepúsculo

Tudo vai morrendo aos poucos
lá fora:

/O colorido acompanha
a despedida do sol.
/O canto dos pássaros
despede-se.

- "O espaço negro banha todos os cantos
e serve de fundo para todas as palavras
que se façam com o giz de nossos sonhos
que hoje ainda não foram mortos".

terça-feira, 10 de maio de 2016

José e a ansiedade

José era um cara legal, mas sofria com sua ansiedade.
Tudo começa a partir de seu nascimento: o menino já queria sair da barriga da mãe com sete meses. Não dá, né José? - Deveria pensar o obstetra. E realmente não dava. Quem nunca viu alguém nascer de sete meses? Acontece, mas não é normal. Dizem os médicos.
Na adolescência José ficou interessado em uma garota. Marcou o encontro. Ficou tão nervoso que na hora da valsa pisou um sem número de vezes no pé da moça.
Nem devo contar o que aconteceu.
A vida do garoto começou a despencar a partir daí. José entrou em crise. Os pais também. A consulta com o psicólogo era caríssima! E na medida que o profissional se especializava mais, a consulta ficava ainda mais cara. José, que era apenas ansioso, começou a ficar preocupado: ansioso, sem dinheiro, sem namorada e sem psicólogo. Ficou ainda pior quando ele viu em um programa de tv que ele deveria se tratar e se acalmar. A partir de então José ficava não apenas ansioso, mas com raiva porque não conseguia controlar sua própria ansiedade. Um caos.
Por um golpe do destino José encontrou uma garota legal. Ela gostou do jeito ansioso dele. Até achava engraçado.
Será que eu estou sonhando? - Perguntava-se ele.
Não, José não estava sonhando.
Com o tempo José passou a não ligar quando diziam que ele era ansioso - E quase todo mundo achava isso. Tudo bem, ele tremia mais do que a maioria das pessoas nas provas. Mas ele aprendeu a ser ele mesmo. Alguns anos depois, José sabia mais sobre si mesmo e sobre sua ansiedade. Notou o que o fazia se sentir assim. Descobriu que ficava pior quando tomava coca-cola. Ninguém acreditou, nem mesmo ele. As coisas eram assim. O que poderia fazer? Deixou a coca-cola e começou a tomar suco verde. Em menos de três meses José virou especialista em sucos verdes.

domingo, 8 de maio de 2016

O que é psicologia


A dama do imponderável

Encantei-me com teu jeito de ver o mundo,
falando-me que aqui, não era apenas o isto,
e o aquilo que interpretava minha visão como tudo
não era senão a imagem, o planeta-cisto

imerso no vasto e imponderável, com seus defeitos
e o caos que sempre lhe fora estranhamente familiar.
Vi-me sobrevoando o universo, guiando-se pelo sussurrar
de tua religião, filosofia e ciência postos em amores e conceitos.

Permaneci contigo porque tu eras - além do mundo as quimeras -
a promessa da eterna e brilhante luz, intensa e salvadora.
Dei-te a minha alma em credulidade, em infinita espera
pelos mundos benditos, melhores do que essa simples esfera.

Ouvi a tua voz feita em palestras, e senti a tua lâmina
passar pelos meus galhos tenros e de sensibilidade fina.
Senti o frio do aço percorrer meus sonhos, repartido-os.
Havia comigo os desejos sinceros, perto de ti, mantive-os.

Agora, devo despedir-me de tua casa de frágeis telhas
com as quais brinquei de atirar as pedras da dúvida
que eu sempre mantive nos bolsos das roupas velhas.
Contigo mantenho das telhas rachadas a nobre dívida.

E, porque não mais quero o teu ouro, me despeço.
Quero agora o pequeno que jaz em mim.
Não desejo, tampouco, o universo,
e sim o grão singelo e irregular do meu jardim.

Descobri, numa topada enquanto andava
que o mistério reside no que antes pensei ser quimera
a abarrotar a minha vida a cada esquina
e em cada rosto plácido da rua em que nasci

Trauma de infância

A mãe a olhou de lado desde seu nascimento. Na verdade, aquele recém nascido não fora planejado, mas fruto de uma paixão repentina de verão. Uma dessas paixões avassaladoras que nos faz esquecer o que há de mais lógico e ponderado.
Alguns dizem que a Psicologia nasceu de parto cesariana, outros dizem que foi natural, porém com algumas complicações. Eu acho mesmo que ela nasceu de parto natural e foi rejeitada ainda no primeiro dia. Então, deixo a vocês a escolha de em qual versão acreditar.
O fato é que a Psicologia teve uma infância difícil. A mãe, chamada Filosofia, parece ter-lhe dado alguma atenção no início. Talvez. Não se sabe. A pobre Psicologia sofreu bullying em seus anos iniciais, principalmente da Ciência, que parecia ser mais robusta e sempre roubava a cena por aqueles tempos. A turma chamava a Psicologia de mal-nutrida. Coitada. Sempre caía nas aulas de Educação Física. Corria mais um pouco e logo despencava como fruta madura. As pessoas até tentavam se manter sérias, mas o riso era inevitável.
Depois de um tempo ela aprendeu a tolerar as ofensas e seguir seu próprio caminho. E eram tantas as veredas. Na adolescência interessou-se por física e matemática, interesses que conciliava aos bate-papos sobre sociologia e antropologia. Um pouco mais velha entrou na vibe new age. Seu mapa dizia que ela era geminiana, com ascendente em sagitário, lua também em gêmeos e vênus em áries.
Agora ela está na época em que precisa decidir o que quer ser. Indicaram-na sessões de psicanálise.


sábado, 7 de maio de 2016

A LENDA DO PRIMEIRO OLHO

Dentre alguns povos antigos costuma-se contar a lenda da primeira pessoa que fora capaz de enxergar. Como toda lenda, ninguém sabe ao certo como ela surgiu, quem propagou e nem quem foi seu protagonista. Talvez isso seja bom. Creio que isso é realmente muito bom. Mas passemos à lenda.
*
A euforia era o sentimento reinante naquele dia de inverno. As mulheres se preparavam para o ato tão solene e os homens, por seu turno, adornavam seus corpos antes de adentrarem na mata com seus instrumentos para caçarem. Tratava-se de um novo nascimento. Como a tribo era pequena, cada novo ser que vinha da nação das estrelas era recebido com muita alegria, festa, dança e as orações habituais para a ocasião.
Tão logo se fez sentir a primeira contração, e que naquele tempo chamava-se apropriadamente de “canto de boas-vindas”, um grupo de dez a quinze mulheres se reuniram dentro de uma tenda feita de pele de animais e estacas, tendo ao centro a mulher que cantava para seu filho e uma avó da tribo. Só a mulher mais experiente poderia receber a criança, as outras deveriam formar um círculo em volta dela e garantir que suas orações fossem a primeira coisa a ser ouvida pela criança com o espírito das estrelas.
Assim que se ouviu o primeiro choro, a gentil avó da tribo tocou parte a parte do corpo daquela nova criança. Era preciso fazer isso, porque não se podia ter um filho de estrela dentro de um corpo defeituoso. Era o que se acreditava.
A avó tocou cada um dos pés, certificando-se de que em cada um fosse encontrado dez dedos, subiu suas carinhosas mãos pelas pernas, tronco, ombros, braços, costas e por fim, o rosto. Mas, para a surpresa daquela anciã, o garoto – já sabia que se tratava de um menino – possuía algo estranho entre a raiz do nariz e o início do couro cabeludo. Não havia outra pessoa com aquela marca. O que era aquilo? Um defeito? Será que aquele seria um bom guerreiro? Mais perguntas do que respostas a anciã sabia, então ela calou e antes do amanhecer do outro dia resolveu falar com o xamã.
Ninguém sabia por qual motivo o povo das estrelas havia mandado um pequeno guerreiro com “aquilo”. Apesar disso, o povo invisível da terra que conversava com o xamã era claro ao dizer que “aquilo” era o que eles precisavam. O Conselho teve que ser reunido. Os mais velhos estavam aturdidos. As regras da tribo não poderiam ser violadas, e o menino não deveria viver. “Aquilo” ameaçava os outros. Se ele não era perfeito, não poderia caçar, não poderia defender as mulheres, não poderia fazer o que um guerreiro deveria fazer. Por outro lado, o povo invisível da terra dizia que eles precisavam “daquilo”.
Depois de muito discutirem, chegaram a uma conclusão: o menino ficaria sempre sob os olhares dos outros e não participaria das atividades principais da tribo, assim ele não meteria ninguém em confusão nem em perigo.
Ainda criança, o menino dizia que as pessoas não eram tão saudáveis, sabia quais frutas poderiam fazer mal e quais poderiam fazer bem. Era capaz de prever quando duas pessoas se chocariam e quando alguém se chocaria com outra coisa qualquer. Em pouco tempo, o menino sabia quem chegava à tenda de seus pais antes mesmo que a pessoa dissesse o nome. Ele também sabia quando alguém estava zangado ou feliz, sem ao menos a pessoa falar disso.
As pessoas se assustaram com o menino e ele se assustava com o susto das pessoas. E por tanto se assustar, o menino aprendeu que melhor era passar parte de seu dia na mata, onde árvores, animais, terra e ar não julgavam e não tinham medo. Ele tinha muitas perguntas, mas poucas respostas. Com o tempo, ele foi deixando de lado as perguntas e pensou em como mostrar ao povo da tribo que ele poderia ajudar mais do que atrapalhar.
As pessoas podiam apenas tocar, cheirar, saborear, mas ele podia algo mais. Algo que ele não sabia o que era e também ninguém mais sabia. Ele conseguia distinguir, mais do que qualquer outro, um galho seco de uma cobra, um tomate de um caqui – antes de por na boca – uma semente de uma pedra. E porque ele era capaz de distinguir, ele criou nomes novos para as coisas novas. Descobriu a tinta e pintou seu corpo, descobriu as ervas certas para a saúde e se tornou o mais saudável e forte, mas o mais temido; descobriu os venenos e se tornou o mais perigoso.
O povo continuava temeroso. O garoto continuava sua batalha interior. Ninguém se entendia. O garoto cansou das pessoas dizerem que ele possuía “aquilo” e resolveu chamar isso de “olho”. Um nome novo para algo igualmente novo. Não se contentou com isso e dizia que sua mágica se chamava “visão” e com ela poderia “ver” coisas que as outras pessoas não viam. O restante da tribo ria-se do rapaz que achava saber do que estava falando.
Os curandeiros tentaram de tudo, mas o jovem não parecia pertencer àquele lugar. A essa altura ele já estava em idade de caçar, de participar dos ritos e de compartilhar o que havia de bom na tribo, mas essas e outras coisas eram-lhe proibidas. Nada parecia estar certo, até o dia em que a esposa do chefe da tribo ficara doente e, apesar dos esforços dos curandeiros, nada pareceu melhorar.
Como último recurso, chamaram o jovem do “olho”. Ele ficou surpreso e eufórico. Talvez todos os seus anos de angústia e humilhação tivessem-no preparado para aquela situação. Correu em ver a esposa do chefe o mais rápido que pôde. Disse, sem demora, aos que estavam ali que “viu” através de seu “olho” que ela tomara o remédio errado para seu mal-estar. A mulher ficou espantada e todos calados. Há muitos anos eles faziam a mesma coisa e ninguém desconfiava que pudesse fazer mal. O rapaz foi até à floresta e voltou com o remédio certo.
O chefe ficou agradecido, e a esposa dele também. Depois do episódio, as pessoas procuravam o jovem que podia prever quando as frutas cairiam, quando a chuva chegaria e quando um animal ameaçava a tribo. Ele ainda contou histórias sobre como o pai-sol acordava de um lado e dormia do outro. Se ele podia ver, podia também esclarecer e foi o que ele fez.

Com o tempo, mais crianças vindas do povo-das-estrelas chegaram com o que já se sabia ser um “olho”.  O rapaz sabia como elas se sentiam, e, por isso as ensinava. Em menos de três gerações a tribo cresceu e se tornou mais saudável. As crianças ficavam menos doentes e os pais menos preocupados, porque eles passaram a entender que o olho poderia ser algo bom para todos.  As caçadas passaram a ser mais proveitosas, os rituais mais alegres. Aqueles que viam eram respeitados não apenas pelo que eram capazes de fazer, mas porque decidiam não fazer certas coisas.

A morte e a tulipa

Na chuva e na serenidade dessa noite
vieram visitar-me enquanto dormia
e a imagem, ao lado do fogo flamejante,
celebrou a morte de tudo que já foi um dia.

Vi a temida caveira escondendo-se por baixo
daquilo que me parecia a normalidade das coisas:
o pensado, o vivido, o concreto, o imaginado, o cacho
dos sonhos brotando junto à videira de gavinhas preciosas.

E eis que o abobadado branco e áspero
deixou de ser o que viveu e tornou-se - de ponta-cabeça-
o cálice alvo do qual poderia servir-se quaisquer em desespero:
bebi o morno e rubro, de cheiro forte e textura espessa

e quase vomitei o mundo que passei a ver
com todos os ossos dos antepassados escondidos
em covas rasas que fizemos com toda pressa do nosso viver.
Atingiu-me a angústia de ser tal como esses esquecidos.

O osso se tornou carne, e a carne sangue e movimento
e o movimento se fez para todos os lados: céu e labareda
e logo depois ele surgiu novamente como cálice do sentimento
vivo e imortal, fugaz e eterno, celestial e de existência sagrada.

E a morte, sorrindo ao lado, disse-me matreira: "Entenda!"
e eu vi, ao lado do tronco que se consumia em chama
as cinzas se tornarem de leito em terra fecunda
de onde nascia a tulipa em lindo heptagrama.