A LENDA DO PRIMEIRO OLHO
Dentre alguns povos antigos costuma-se contar a lenda da primeira pessoa que fora capaz de enxergar. Como toda lenda, ninguém sabe ao certo como ela surgiu, quem propagou e nem quem foi seu protagonista. Talvez isso seja bom. Creio que isso é realmente muito bom. Mas passemos à lenda.
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A euforia era o sentimento reinante naquele dia de inverno. As mulheres se preparavam para o ato tão solene e os homens, por seu turno, adornavam seus corpos antes de adentrarem na mata com seus instrumentos para caçarem. Tratava-se de um novo nascimento. Como a tribo era pequena, cada novo ser que vinha da nação das estrelas era recebido com muita alegria, festa, dança e as orações habituais para a ocasião.
Tão logo se fez sentir a primeira contração, e que naquele tempo chamava-se apropriadamente de “canto de boas-vindas”, um grupo de dez a quinze mulheres se reuniram dentro de uma tenda feita de pele de animais e estacas, tendo ao centro a mulher que cantava para seu filho e uma avó da tribo. Só a mulher mais experiente poderia receber a criança, as outras deveriam formar um círculo em volta dela e garantir que suas orações fossem a primeira coisa a ser ouvida pela criança com o espírito das estrelas.
Assim que se ouviu o primeiro choro, a gentil avó da tribo tocou parte a parte do corpo daquela nova criança. Era preciso fazer isso, porque não se podia ter um filho de estrela dentro de um corpo defeituoso. Era o que se acreditava.
A avó tocou cada um dos pés, certificando-se de que em cada um fosse encontrado dez dedos, subiu suas carinhosas mãos pelas pernas, tronco, ombros, braços, costas e por fim, o rosto. Mas, para a surpresa daquela anciã, o garoto – já sabia que se tratava de um menino – possuía algo estranho entre a raiz do nariz e o início do couro cabeludo. Não havia outra pessoa com aquela marca. O que era aquilo? Um defeito? Será que aquele seria um bom guerreiro? Mais perguntas do que respostas a anciã sabia, então ela calou e antes do amanhecer do outro dia resolveu falar com o xamã.
Ninguém sabia por qual motivo o povo das estrelas havia mandado um pequeno guerreiro com “aquilo”. Apesar disso, o povo invisível da terra que conversava com o xamã era claro ao dizer que “aquilo” era o que eles precisavam. O Conselho teve que ser reunido. Os mais velhos estavam aturdidos. As regras da tribo não poderiam ser violadas, e o menino não deveria viver. “Aquilo” ameaçava os outros. Se ele não era perfeito, não poderia caçar, não poderia defender as mulheres, não poderia fazer o que um guerreiro deveria fazer. Por outro lado, o povo invisível da terra dizia que eles precisavam “daquilo”.
Depois de muito discutirem, chegaram a uma conclusão: o menino ficaria sempre sob os olhares dos outros e não participaria das atividades principais da tribo, assim ele não meteria ninguém em confusão nem em perigo.
Ainda criança, o menino dizia que as pessoas não eram tão saudáveis, sabia quais frutas poderiam fazer mal e quais poderiam fazer bem. Era capaz de prever quando duas pessoas se chocariam e quando alguém se chocaria com outra coisa qualquer. Em pouco tempo, o menino sabia quem chegava à tenda de seus pais antes mesmo que a pessoa dissesse o nome. Ele também sabia quando alguém estava zangado ou feliz, sem ao menos a pessoa falar disso.
As pessoas se assustaram com o menino e ele se assustava com o susto das pessoas. E por tanto se assustar, o menino aprendeu que melhor era passar parte de seu dia na mata, onde árvores, animais, terra e ar não julgavam e não tinham medo. Ele tinha muitas perguntas, mas poucas respostas. Com o tempo, ele foi deixando de lado as perguntas e pensou em como mostrar ao povo da tribo que ele poderia ajudar mais do que atrapalhar.
As pessoas podiam apenas tocar, cheirar, saborear, mas ele podia algo mais. Algo que ele não sabia o que era e também ninguém mais sabia. Ele conseguia distinguir, mais do que qualquer outro, um galho seco de uma cobra, um tomate de um caqui – antes de por na boca – uma semente de uma pedra. E porque ele era capaz de distinguir, ele criou nomes novos para as coisas novas. Descobriu a tinta e pintou seu corpo, descobriu as ervas certas para a saúde e se tornou o mais saudável e forte, mas o mais temido; descobriu os venenos e se tornou o mais perigoso.
O povo continuava temeroso. O garoto continuava sua batalha interior. Ninguém se entendia. O garoto cansou das pessoas dizerem que ele possuía “aquilo” e resolveu chamar isso de “olho”. Um nome novo para algo igualmente novo. Não se contentou com isso e dizia que sua mágica se chamava “visão” e com ela poderia “ver” coisas que as outras pessoas não viam. O restante da tribo ria-se do rapaz que achava saber do que estava falando.
Os curandeiros tentaram de tudo, mas o jovem não parecia pertencer àquele lugar. A essa altura ele já estava em idade de caçar, de participar dos ritos e de compartilhar o que havia de bom na tribo, mas essas e outras coisas eram-lhe proibidas. Nada parecia estar certo, até o dia em que a esposa do chefe da tribo ficara doente e, apesar dos esforços dos curandeiros, nada pareceu melhorar.
Como último recurso, chamaram o jovem do “olho”. Ele ficou surpreso e eufórico. Talvez todos os seus anos de angústia e humilhação tivessem-no preparado para aquela situação. Correu em ver a esposa do chefe o mais rápido que pôde. Disse, sem demora, aos que estavam ali que “viu” através de seu “olho” que ela tomara o remédio errado para seu mal-estar. A mulher ficou espantada e todos calados. Há muitos anos eles faziam a mesma coisa e ninguém desconfiava que pudesse fazer mal. O rapaz foi até à floresta e voltou com o remédio certo.
O chefe ficou agradecido, e a esposa dele também. Depois do episódio, as pessoas procuravam o jovem que podia prever quando as frutas cairiam, quando a chuva chegaria e quando um animal ameaçava a tribo. Ele ainda contou histórias sobre como o pai-sol acordava de um lado e dormia do outro. Se ele podia ver, podia também esclarecer e foi o que ele fez.
Com o tempo, mais crianças vindas do povo-das-estrelas chegaram com o que já se sabia ser um “olho”. O rapaz sabia como elas se sentiam, e, por isso as ensinava. Em menos de três gerações a tribo cresceu e se tornou mais saudável. As crianças ficavam menos doentes e os pais menos preocupados, porque eles passaram a entender que o olho poderia ser algo bom para todos. As caçadas passaram a ser mais proveitosas, os rituais mais alegres. Aqueles que viam eram respeitados não apenas pelo que eram capazes de fazer, mas porque decidiam não fazer certas coisas.