Só aquilo que somos realmente tem o poder de nos curar (Carl Jung)

domingo, 4 de dezembro de 2016

O dragão e o feitiço VI

O dragão, antes feroz e amigo íntimo da morte, foi tocado pelas palavras e ações do rapaz. De súbito, o olhar maligno desapareceu. Tornou-se uma criatura menor, mais pacífica. Talvez tenha sido tocado, doutrinado ou apenas viera a ficar comovido. Se essa fosse um conto de magia, então teríamos um feitiço quebrado, mas sendo essa história real naquilo que pode ser, dizemos então que o dragão transformou-se.
O monstro chegou perto do rapaz e disse:
- Nasci com o propósito de ser temível, e fui. Vivi o tempo necessário para ver você chegar, mas não viverei tanto pra vê-lo partir. Hoje transformo a mim mesmo, porque você foi capaz de se transformar.
- Não tenho crédito ou mérito nessa transformação. Comi o pão amassado e pedi a bênção ao deus-diabo. Dobrei os joelhos forçadamente e tive que ergue-me como um súbito reflexo para me manter vivo. Veja, meus braços e pernas são moradas de terríveis cicatrizes!
- Você fica acanhado ao mostrá-las, mas veja as minhas. Outrora marcas, minhas escamas agora são meu escudo, minha proteção e casulo. Casulo que não precisarei mais de hoje em diante. A vida é aquilo que é, e quando você morre e nasce muita vezes, não há mais começo ou fim: o que sobra é apenas ser.





Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Suas opiniões são importantes. Lembre-se que a pessoa que lê os comentários é tão humano quanto você. Cada palavra carrega em si a energia de seu autor. Dê o melhor de si em cada gesto e palavra. Grande abraço!