O Psicoterapia, sonhos e contos tem como objetivo expor textos, poemas e histórias, levando sempre em conta o papel criativo e mágico do inconsciente e suas articulações com nosso cotidiano.
Só aquilo que somos realmente tem o poder de nos curar (Carl Jung)
sábado, 7 de maio de 2016
A morte e a tulipa
Na chuva e na serenidade dessa noite vieram visitar-me enquanto dormia e a imagem, ao lado do fogo flamejante, celebrou a morte de tudo que já foi um dia.
Vi a temida caveira escondendo-se por baixo daquilo que me parecia a normalidade das coisas: o pensado, o vivido, o concreto, o imaginado, o cacho dos sonhos brotando junto à videira de gavinhas preciosas.
E eis que o abobadado branco e áspero deixou de ser o que viveu e tornou-se - de
ponta-cabeça- o cálice alvo do qual poderia servir-se quaisquer
em desespero: bebi o morno e rubro, de cheiro forte e textura
espessa
e quase vomitei o mundo que passei a ver com todos os ossos dos antepassados escondidos em covas rasas que fizemos com toda pressa do nosso
viver. Atingiu-me a angústia de ser tal como esses
esquecidos.
O osso se tornou carne, e a carne sangue e
movimento e o movimento se fez para todos os lados: céu e
labareda e logo depois ele surgiu novamente como cálice do
sentimento vivo e imortal, fugaz e eterno, celestial e de
existência sagrada.
E a morte, sorrindo ao lado, disse-me matreira:
"Entenda!" e eu vi, ao lado do tronco que se consumia em chama as cinzas se tornarem de leito em terra fecunda de onde nascia a tulipa em lindo heptagrama.
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