Só aquilo que somos realmente tem o poder de nos curar (Carl Jung)

domingo, 8 de maio de 2016

A dama do imponderável

Encantei-me com teu jeito de ver o mundo,
falando-me que aqui, não era apenas o isto,
e o aquilo que interpretava minha visão como tudo
não era senão a imagem, o planeta-cisto

imerso no vasto e imponderável, com seus defeitos
e o caos que sempre lhe fora estranhamente familiar.
Vi-me sobrevoando o universo, guiando-se pelo sussurrar
de tua religião, filosofia e ciência postos em amores e conceitos.

Permaneci contigo porque tu eras - além do mundo as quimeras -
a promessa da eterna e brilhante luz, intensa e salvadora.
Dei-te a minha alma em credulidade, em infinita espera
pelos mundos benditos, melhores do que essa simples esfera.

Ouvi a tua voz feita em palestras, e senti a tua lâmina
passar pelos meus galhos tenros e de sensibilidade fina.
Senti o frio do aço percorrer meus sonhos, repartido-os.
Havia comigo os desejos sinceros, perto de ti, mantive-os.

Agora, devo despedir-me de tua casa de frágeis telhas
com as quais brinquei de atirar as pedras da dúvida
que eu sempre mantive nos bolsos das roupas velhas.
Contigo mantenho das telhas rachadas a nobre dívida.

E, porque não mais quero o teu ouro, me despeço.
Quero agora o pequeno que jaz em mim.
Não desejo, tampouco, o universo,
e sim o grão singelo e irregular do meu jardim.

Descobri, numa topada enquanto andava
que o mistério reside no que antes pensei ser quimera
a abarrotar a minha vida a cada esquina
e em cada rosto plácido da rua em que nasci

2 comentários:

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